Podemos alimentar o discurso de ódio sem perceber
*Por João Pedro Favaretto Salvador

Ocorre que, também por essa razão, as mesmas ações que contribuem para a propagação de um vídeo, foto ou meme, como as curtidas e compartilhamentos, colaboram para disseminar essas mensagens problemáticas. Entender isso é importante evitarmos propagar o discurso que queremos combater.
Explico: por causa de como as plataformas funcionam, quanto mais interagirmos com a postagem problemática, maior será audiência atingida por ela e mais perigosa esta mensagem será. Isso acontece mesmo quando compartilhamos uma manifestação de ódio como forma de denúncia ou publicamos um comentário criticando o conteúdo.
Os algoritmos da plataforma que escolhem o conteúdo a ser propagado nem sempre são capazes de identificar nossas ações como desagrado ou apoio. Para esses “robôs”, o entendimento é de que o assunto está “bombando” e deve ser impulsionado.
Infelizmente, mesmo com boas intenções e sem perceber, podemos acabar ajudando a disseminar posts que depreciam pessoas por sua etnia, gênero, orientação sexual ou outro marcador social. Isso é profundamente perigoso, pois quanto mais pessoas são alcançadas e têm suas opiniões formadas por discursos de ódio, mais provável se torna que algumas delas pratiquem atos concretos de discriminação e violência contra minorias sociais e grupos vulneráveis.
Infelizmente, não há muito o que se possa fazer, individualmente, para impedir o alastramento do discurso de ódio nas redes. Na prática, quando vemos uma publicação problemática, o melhor que podemos fazer é denunciar a publicação à plataforma e esperar por uma decisão de removê-la.
Isso porque o poder de regulação dessas manifestações está quase todo na mão das grandes empresas de tecnologia. Remover publicações, controlar o fluxo de comunicação e mudar o direcionamento dos algoritmos, de forma que discursos de ódio não sejam tratados da mesma forma que publicações informativas, divertidas e interessantes, cabe às empresas.
Como sociedade organizada, temos mais poder. Podemos pedir por uma regulação que dê orientações e incentivos claros para o combate à disseminação de discursos de ódio de forma organizada e cuidadosa pelas plataformas. Não queremos que saiam censurando tudo que é publicado, mas deve haver, sim, um esforço para fazer com que o conteúdo problemático seja tratado de forma diferente do conteúdo positivo pelos sistemas de recomendação desses espaços virtuais.
A questão fundamental é que o combate a disseminação do discurso de ódio nas redes sociais não é uma missão que pode ser cumprida individualmente. Ela exige organização, colaboração e, acima de tudo, estratégia. Temos que tomar cuidado para não impulsionar o conteúdo que queremos combater.



