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Setor está em busca de novos talentos

Um dos principais desafios do mercado tecnológico brasileiro é a falta de mão de obra especializada para atuar em diferentes funções, como desenvolvedor, suporte de TI, analista de dados e outros. Para melhorar o cenário de contratação, as empresas têm investido em capacitação e formação de talentos para buscar, entre jovens e adultos, pessoas interessadas em ingressar na área. As oportunidades de atuação são muitas, e é preferível que o estagiário tenha flexibilidade para aprender sobre diferentes setores dentro da empresa, com suporte da equipe e gestão. Confira, abaixo, dicas de especialistas para iniciar carreira na área e histórias de profissionais que trilharam esse caminho.

Quando se trata de estágio, principalmente na área de tecnologia, o mais importante não é a experiência técnica. Para Luciano Campanhã, gestor de RH estratégico da Hexagon, durante a entrevista é importante que o candidato seja sincero e honesto em suas respostas. “Notamos que, às vezes, por inexperiência ou insegurança, as pessoas tentam impressionar e exagerar em alguns fatos, o que é desnecessário nessa etapa inicial da carreira. Para um estágio, buscamos as qualidades pessoais e não uma experiência prévia. Um bom profissional para estágio é aquele que tem bons valores e princípios, não uma vasta experiência ou realizações”. Outra dica de Luciano é reservar um tempo e escolher um local adequado para a entrevista, caso seja online. “É essencial evitar interrupções ou distrações nessa etapa”.

A cofundadora e CHRO da vertical de People as a Service (PaaS) da Triven, Lilian Carina, acredita  que o estágio é um processo muito benéfico e proveitoso para colaboradores e empresas, mas é essencial ter  um bom alinhamento de expectativas e responsabilidades desde o início. “É preciso ainda ter um responsável para acompanhá-los, orientá-los e dar feedbacks, para que possam conversar sobre as oportunidades de aprendizado e adaptabilidade em relação à cultura.  É recomendável que o estagiário tenha acesso a diferentes áreas ou tarefas”, completa. Lilian acrescenta que o setor de tecnologia tem alguns diferenciais para os estagiários, como a aceleração de aprendizagem, uma vez que nas startups há um incentivo para a prática de ideias e conhecimentos, e ambientes colaborativos, com uma cultura hands-on, o que permite a interação dos estagiários com profissionais muito experientes. O contato com a inovação constante é outro aspecto positivo apontado pela especialista para quem busca estágios em startups.

Estágio para crescer em outro setor

Em 2021, a publicitária Ana Carolina Brigo trocou um emprego efetivo na área de social media para atuar como estagiária na multinacional italiana Zucchetti, que desenvolve softwares de gestão. Para ela, a mudança valeu a pena. “Eu decidi descer um degrau e entrar em uma empresa que me atraiu pela possibilidade de trabalhar com algo que eu ainda não tinha experiência, com mais qualidade de vida e possibilidades de crescimento”, conta.

A aposta deu certo. Depois de cerca de um ano como estagiária, ela foi efetivada em janeiro de 2023 e hoje é assistente de marketing, atuando com anúncios no Google Ads. “Durante o estágio eu tive a oportunidade de aprender de verdade, com mentoria e treinamentos e apoio da equipe. Se eu não sabia fazer algo, tinha a liberdade de pedir ajuda, aprender e ser acompanhada nesse processo. Sempre me senti parte do fortalecimento da marca Zucchetti, porque essa ideia de que nosso trabalho faz a diferença é transmitida dentro da empresa”.

Perguntar para desenvolver habilidades

Atualmente, Gabriel Neves da Silva é consultor de negócios da RTM, hub integrador do mercado financeiro. Seu início na empresa foi como estagiário de backoffice, em 2014, na sede do Rio de Janeiro. Depois de 2 anos, foi efetivado como analista, mas, em 2017, surgiu a oportunidade de uma mudança para São Paulo. “Foi um momento importante para mim, pois entendi o quanto a RTM confiava no meu trabalho. Em 2021 eu recebi uma proposta para me tornar consultor de negócios”, detalha.

Formado em administração, Gabriel conta que entrar em um setor tão específico quanto o de tecnologia para o mercado financeiro foi desafiador, mas a cultura de colaboração dentro da empresa ajudou muito. “Lembro de uma das primeiras reuniões que eu participei. Eu não entendia vários termos que estavam sendo usados e anotei para pesquisar depois, para não interromper. No final, um diretor me chamou, perguntou se eu tinha dúvidas e ficou um longo tempo comigo me ensinando sobre o setor. Naquele momento eu percebi que tinha possibilidade de perguntar e me desenvolver”.

Aprendizado e Soft skills 

Com 23 anos de carreira na área de Tecnologia, Klayton Martins, CEO da VisãoGeo e cofundador Grupo Verante, reforça a importância do estágio como base de sua carreira profissional bem sucedida. O executivo aponta algumas características que são fundamentais para os novos profissionais: manter a postura ética e íntegra; priorizar as oportunidades de conhecimento e se dedicar ao máximo.  “Nossa trajetória profissional é construída nas ações do dia a dia. Por isso, recomendo sempre máxima dedicação às atividades que está desempenhando. Estamos sendo sempre observados e, do estágio, podem surgir oportunidades que poderão mudar a sua vida. Eu, por exemplo, conheci meu sócio, Fabiano dos Santos, numa das oportunidades proporcionadas pelo estágio em um projeto de pesquisa na Eletrosul”, relembra.

O executivo orienta ainda aos estudantes a buscarem desenvolver a habilidade de aprender rápido. Klayton explica que, no segmento tecnologia, é importante não ter medo de errar. “Pior do que errar é ficar parado. Devemos entender o papel do estágio no aprendizado e priorizar vagas que vão de encontro ao que o estudante planeja para o seu futuro”, aconselha.

Organização em ecossistemas para formação de talentos

Para startups, empresas de tecnologia e corporações, está claro que a organização e associação em ecossistemas é um caminho para superar desafios comuns. Por isso, muitas trabalham de forma conjunta para formar novos talentos para o setor. Na ACATE (Associação Catarinense de Tecnologia), entidade que reúne mais de 1600 associadas em 10 polos de inovação. Nos últimos dois anos, mais de 15 mil pessoas foram impactadas por meio dos cursos em parceria com a Acate, onde há um departamento dedicado a pensar saídas e ampliar a mão de obra no setor, como é o caso da Vice-Presidência de Talentos, coordenada por Moacir Marafon.

“O estágio nas empresas do setor de tecnologia contribui para reduzir a evasão escolar pois os alunos passam a perceber a aplicabilidade do conteúdo e, com isso, o mercado passa contar com mais profissionais disponíveis, reduzindo assim a diferença entre oferta e demanda por talentos. Adicionalmente, também é uma oportunidade para as empresas treinarem novos talentos em seu ambiente de trabalho, nas suas tecnologias, processos e cultura, preparando-os para que, quando contratados, já estejam com bom desempenho”, afirma Marafon. A ACATE apoia programas gratuitos neste sentido, como o Prototipando a Quebrada, com oficinas para jovens da periferia; o ONE, curso online de programação; e outros.