Colaboração Chile-Brasil avalia impactos da mudança climática em um dos locais mais intocados do mundo

Elton Alisson | Agência FAPESP – No extremo Sul das Américas está situada a região subantártica chilena, um dos lugares mais intocados do mundo. Por isso o local, onde está localizado o Cabo de Hornos, é considerado um laboratório natural para observar as causas e as consequências das mudanças climáticas globais em um ambiente pouco alterado diretamente pela ação humana.

Por meio da colaboração com cientistas da Universidade de Magallanes, do Chile, pesquisadores brasileiros têm realizado estudos na região desde o ano 2000.

A parceira, que já resultou na publicação de diversos artigos científicos, livros e convênios, ganhou impulso com a inauguração, em maio de 2023, do Centro Internacional do Cabo Horn para Estudos de Mudança Global e Conservação Biocultural (CHIC, na sigla em inglês).

Localizado em Porto Williams, no norte da Ilha Navarino, no arquipélago da Terra do Fogo, o CHIC servirá como uma base estratégica para a realização de pesquisas transdisciplinares em áreas como climatologia, biodiversidade marinha, glaciologia, biologia terrestre e educação.

Com um investimento de mais de 10 bilhões de pesos chilenos – equivalente a R$ 300 milhões – por um período de dez anos, renovável por mais cinco anos, o projeto representa um dos maiores investimentos já feitos em ciência e tecnologia na região.

“Por meio do CHIC um grupo de mais de 80 pesquisadores, vinculados à Universidade de Magallanes e a outras instituições internacionais, tem desenvolvido um trabalho interdisciplinar inédito, que integra ciências, educação, artes e ética ambiental em programas de pesquisa, educação ambiental, conservação e turismo sustentável”, diz à Agência FAPESP Flávio Berchez, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e um dos participantes do projeto.

Em outubro de 2023, Berchez e mais seis pesquisadores brasileiros participaram no CHIC de um workshop da rede binacional Chile-Brasil para Estudos dos Ecossistemas Marinhos Subantárticos com o objetivo de planejar novas linhas de pesquisa colaborativa.

Um dos estudos que os pesquisadores pretendem realizar por meio dos projetos em parceria será voltado a investigar os padrões de distribuição de espécies de algas marinhas e microrganismos associados a elas ao longo da costa do Atlântico Sul, por exemplo.

Com as mudanças climáticas globais, espécies de algas marinhas e seus microrganismos associados podem migrar para regiões com temperaturas mais amenas, explica Mariana Cabral de Oliveira, professora do IB-USP e integrante da colaboração.

“Seria muito interessante verificar as barreiras biogeográficas existentes para essa migração no Atlântico Sul de massas de algas pardas flutuantes, presentes no Brasil e no Chile, por exemplo. É importante avaliar o impacto da chegada dessas massas na flora local”, indica a pesquisadora.

Ameaça às algas gigantes

De acordo com Oliveira, no Cabo de Hornos são encontrados bosques submarinos de kelps, formados por espécies de algas gigantes que chegam a medir até 60 metros.

Consideradas “engenheiras ambientais”, por estruturar ecossistemas inteiros, essas algas fornecem continuamente abrigo, alimento, proteção e acomodação para reprodução de diversos organismos, dentre eles muitos de interesse pesqueiro, como peixes e caranguejos como a Centolla ou “caranguejo-rei”. Além disso, estudos mostram que as algas gigantes constituem protetores naturais contra a radiação ultravioleta (UV) para diversos organismos marinhos ao filtrar a radiação solar.

Devido a uma diferença genética, esses bosques submarinos no Cabo de Hornos são perenes, ao contrário dos demais do Chile. Alguns estudos têm mostrado, contudo, que eles já podem estar sendo afetados pelas mudanças climáticas.

O derretimento de geleiras a um ritmo mais acelerado tem levado uma quantidade maior de sedimentos de água doce para regiões costeiras. Na coluna d’água, a presença desses sedimentos pode sombrear as populações de algas gigantes.

“Isso pode causar a perda ou outros efeitos negativos nessas algas. Precisamos estudar isso agora com maior nível de detalhe porque essas mudanças já estão ocorrendo”, afirma Oliveira.

O aumento da temperatura do mar também tem causado a diminuição da disponibilidade de nutrientes, encontrados em maior abundância em águas mais frias, e afetado o crescimento das algas gigantes.

Sob temperaturas mais quentes, esses organismos também aumentam a taxa respiratória e, consequentemente, têm crescimento mais lento, explica Berchez.

“Esses e outros fatores podem impactar os bosques de algas gigantes naquela região. Esse fenômeno foi detectado, pela primeira vez, na Austrália, em 2011, e também ocorre em outros lugares. É preciso avaliar se já está ocorrendo na região do Cabo de Hornos”, sublinha.

Emissão de gases de efeito estufa

Além do ambiente marinho, as mudanças climáticas devem impactar o ambiente terrestre da região, também altamente isolado geograficamente, tendo ao lado norte tanto a região dos Andes e seus glaciares permanentes como também a região extremamente seca da Patagônia argentina e, nas demais direções, o oceano.

Uma das principais preocupações está relacionada ao aumento da temperatura nas extensas áreas da região cobertas por turfeiras (a turfa é um material de origem vegetal, parcialmente decomposto, encontrado geralmente em regiões pantanosas e também em montanhas). O aquecimento tem causado o degelo e a decomposição das turfeiras e, consequentemente, a emissão de metano, um dos mais potentes gases de efeito estufa (GEE).

“Isso já está ocorrendo em lugares como a Sibéria. No início do processo de decomposição, as turfeiras passam a emitir metano, que é um gás de efeito estufa muito mais intenso do que o dióxido de carbono. Essas emissões já vêm sendo medidas”, afirma Berchez.

A colaboração brasileira também é integrada por Pio Colepicolo Neto, professor do Instituto de Química da USP; e Luiz Mafra, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de Oreste Alarcon e Paulo Horta, professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza?

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A construção de uma nova forma de pensar a relação entre humanos e natureza, para que possa haver um futuro, e um futuro desejável, foi o tema central da 7ª Conferência FAPESP 2023, ministrada na sexta-feira (27/10) por Laura Maureen Pereira. Pesquisadora do Global Change Institute, da Wits University, na África do Sul, ela já realizou pesquisas também em Moçambique, Nigéria, Quênia, Colômbia e Brasil. E trouxe ao auditório da FAPESP uma visão multidisciplinar e positiva sobre como ultrapassar a crise atual e promover a coexistência e a sustentabilidade de ecossistemas e sociedades.

Pereira iniciou sua conferência, que teve como tema “Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza? Operacionalização do Nature Futures Framework”, propondo um exercício mental para a plateia: “Fechem seus olhos e pensem agora em como São Paulo se parecerá em 2100”. E, apontando o contraste entre o futuro desejável que podemos imaginar e o contexto atual, de incêndios, inundações, ondas de calor, furacões, extinção de espécies em massa e comportamentos humanos enlouquecidos, falou sobre a necessidade de cultivar a habilidade de imaginar.

“Antes de pensar em caminhos ou intervenções, precisamos construir capacidades de visualizar para onde queremos ir e com o que esses futuros transformados poderiam se parecer”, disse. E apresentou o trabalho que está sendo realizado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), organização independente voltada para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade, bem-estar humano de longo prazo e desenvolvimento sustentável. Criada em 2012, fora do âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), a IPBES reúne atualmente representantes dos governos de 145 países.

Em avaliações metodológicas feitas em 2016, a IPBES destacou que, embora os cenários sejam ferramentas úteis para a definição de políticas, poucos cenários apresentam futuros positivos. Em sua maioria, limitam-se a avaliar impactos sobre a natureza e tendem a ser negativos. Diferentes políticas e respostas relativas à natureza são, neles, mal representadas.

Três anos mais tarde, em 2019, a IPBES enfatizou a necessidade de novos cenários capazes de impulsionar ações multiculturais diversificadas para engajar a sociedade em mudanças de estilo de vida e reverter o declínio da biodiversidade, rumo a um ideal de convivência harmoniosa entre humanos e natureza em 2050.

“Foi nesse contexto que um grupo de especialistas da IPBES se encarregou de estabelecer uma nova Estrutura de Cenários Globais [Global Scenarios Framework], centrada na natureza, positiva e que reconheça a existência de diferentes visões de mundo, sistemas de conhecimento e maneiras de valorizar a natureza”, afirmou Pereira.

Foi dessa iniciativa que surgiu a Nature Futures Framework (NFF, Estrutura de Futuros da Natureza), “uma ferramenta flexível para apoiar o desenvolvimento de cenários e modelos de futuros desejáveis para as pessoas, a natureza e a Mãe Terra”, conforme a definição da própria IPBES.

O modelo é o de um triângulo equilátero, representando três perspectivas de valorização da natureza. A perspectiva “natureza pela natureza” enfoca a natureza como tendo um valor intrínseco, baseado na diversidade de espécies, hábitats, ecossistemas e processos, sendo capaz de funcionar de forma autônoma. A perspectiva “natureza como cultura” destaca principalmente a visão de sermos “um com a natureza”, expressando os valores de tradições, culturas e sociedades que se consideram interligadas com a natureza na formação de paisagens bioculturais. A perspectiva “natureza para a sociedade” destaca os benefícios utilitários e instrumentais que a natureza proporciona às pessoas e às sociedades.

As perspectivas não são excludentes. E círculos traçados a partir dos vértices do triângulo se interseccionam, possibilitando uma ampla gama de cenários complexos.

Pereira descreveu a linha do tempo de desenvolvimento do NFF, “que foi refinado em encontros e workshops realizados em diversos países e em diálogos on-line ocorridos durante a pandemia”. E apresentou representações pictóricas altamente elaboradas feitas por artistas ancorados em culturas tradicionais da Ásia, África e América. A visão multicultural, o acolhimento das culturas indígenas e a valorização do conhecimento local são componentes fortes da iniciativa. A passagem do NFF aos cenários propriamente ditos é o passo seguinte a ser dado ao longo dos próximos dois anos.

A pesquisadora explorou várias possibilidades de aplicação do NFF, tanto em escala global quanto local. E abriu em seguida uma sessão de perguntas e respostas.

“Os humanos mudaram a maneira como o mundo funciona. Agora, precisam mudar também a maneira como pensam sobre isso”: com esta frase emblemática, atribuída a um texto publicado em The Economist (2011), Laura Maureen Pereira encerrou sua apresentação.

O evento teve a presença de Marcio de Castro, diretor científico da FAPESP, e foi moderado por Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.

A 7ª Conferência FAPESP 2023, “Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza? Operacionalização do Nature Futures Framework”, pode ser assistida na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=T8CUrZTpp9U. 

Biomaterial desenvolvido na Unesp se mostra capaz de acelerar a regeneração óssea

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto de Biociências de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (IBB-Unesp), desenvolveram um novo biomaterial que acelera a diferenciação de células que produzem ossos – conhecidas como osteoblastos. O resultado se mostrou promissor para uso futuro em processos de regeneração óssea, podendo ser empregado, por exemplo, em enxertos e recobrimento de implantes.

O estudo mostrou que o desenvolvimento de um fosfato de cálcio – molécula com estrutura semelhante ao mineral ósseo – carregado (dopado) com cobalto é capaz de estimular a diferenciação dos osteoblastos. O resultado foi publicado no Journal of Biomedical Materials Research.

“Nossos dados reúnem, pela primeira vez, evidências suficientes baseadas na hipóxia [baixa concentração de oxigênio] de que podemos ter um novo material biomimético com perspectivas de regenerar o tecido ósseo. Em enxertos nem sempre há condições de quantidade e qualidade suficientes para que o osso autógeno [removido do próprio paciente para enxerto] seja usado na clínica”, afirma à Agência FAPESP o biólogo e professor Willian Fernando Zambuzzi, responsável pelo estudo.

Atualmente, tratamentos para pacientes que precisam de enxerto, seja por fraturas, por intervenções para retirada de tumores (ressecção) ou mesmo em próteses dentárias, acabam usando fragmentos de ossos provenientes do próprio indivíduo. Esse processo, no entanto, demanda cirurgias adicionais para a obtenção do material autógeno, com aumento do risco de infecções e maior tempo de convalescença.

Pesquisador da biologia do osso desde os anos 2000, Zambuzzi tem apoio da FAPESP e é orientador do doutorando Gerson Santos de Almeida, primeiro autor do trabalho. Segundo o professor, o grupo tem buscado conhecer moléculas e mecanismos envolvidos no desenvolvimento ósseo e sua relação com biomateriais.

Nos últimos anos, com o aumento da expectativa de vida da população, processos regenerativos do tecido ósseo têm sido alvo de pesquisas no mundo todo e de busca por terapias mais eficazes, visando restabelecer o paciente rapidamente, reduzir o tempo de internação, os custos do tratamento e eventuais efeitos colaterais. Entre as linhas de estudo estão o desenvolvimento de materiais que repliquem com similaridade, segurança e eficiência a complexidade da estrutura óssea.

Construção de conhecimento

Em 2014, estudo liderado pelo pesquisador Ralf Adams, do Instituto Max Planck (Alemanha), e publicado na revista Nature mostrou que células endoteliais – que revestem os vasos sanguíneos – têm capacidade de estimular a diferenciação de osteoblastos, apontando sincronia entre elas. A partir desses achados, Zambuzzi, que à época tinha apoio da FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Jovens Pesquisadores, começou a desenvolver essa linha de estudos no então recém-criado Laboratório de Bioensaios e Dinâmica Celular.

Com base nos resultados prévios somados à literatura, o professor trabalhou com a busca por moléculas que estimulassem o crescimento de vasos sanguíneos, visando um efeito indireto na diferenciação dos osteoblastos. Chegou ao cloreto de cobalto (um sal), que conhecidamente estimula a hipóxia e leva o organismo a aumentar o número de vasos sanguíneos para tentar suprir a ausência de oxigênio.

“A hipóxia acontece naturalmente nos tecidos. Conhecendo seu desenvolvimento e a relação de células endoteliais com as ósseas, entramos nos aspectos biomiméticos. A partir daí, resolvemos provocar artificialmente uma molécula nova – o sal dopado com cobalto – para que pudesse estimular a produção de ossos, como um efeito complementar ao aumento da angiogênese”, explica o professor.

Com base em normas de avaliação biológica (ISSO 10993:5), os testes mostraram que não há toxicidade do novo material. Além disso, a quantidade de cobalto foi decisiva na definição da concentração ideal para aplicações biomédicas futuras, abrindo novos horizontes em medicina regenerativa. “Os resultados são conclusivos na pesquisa básica e nos habilita a buscar modelos pré-clínicos mais complexos de análise buscando melhor compreensão translacional desses achados, como testes em animais”, afirma Zambuzzi.

De acordo com o professor, seu grupo tem buscado estabelecer modelos biológicos in vitro com base no chamado “Princípio dos 3 R’s” – que em português significa redução, substituição e refinamento –, mas se convence da necessidade de modelos que preservem a fisiologia dos vertebrados em alguma etapa do desenvolvimento de novos produtos.

“Estamos no caminho de desenvolver novos materiais biomiméticos que satisfaçam a qualidade de vida das pessoas, dando a devida importância ética ao uso de animais de experimentação”, conclui.

O artigo Development of cobalt (Co)-doped monetites for bone regeneration pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jbm.b.35319#. 

Mudanças climáticas podem levar à perda de mais de 90% das comunidades de mamíferos da Caatinga

Imagem de DAVISON ALVES por Pixabay

André Julião | Agência FAPESP – O cenário de mudanças climáticas previsto para a Caatinga é catastrófico para a maioria das espécies de mamíferos terrestres que habitam a região.

Em estudo publicado nesta terça-feira (17/10) na revista Global Change Biology, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e das federais da Paraíba (UFPB) e de Minas Gerais (UFMG) preveem a perda de 91,6% das comunidades desses animais no bioma, com 87% das espécies perdendo hábitat ainda em 2060.

“Esse é o cenário otimista, em que a humanidade cumpre o Acordo de Paris, reduz as emissões de gases do efeito estufa e diminui o ritmo do aquecimento previsto para as próximas décadas”, explica Mário Ribeiro de Moura, pesquisador do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp apoiado pela FAPESP e coordenador do estudo.

A equipe de pesquisadores cruzou as mais recentes previsões de temperaturas futuras divulgadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), com bancos de dados de ocorrência de espécies de mamíferos na Caatinga.

Foram utilizados diferentes modelos estatísticos para capturar as tolerâncias fisiológicas das espécies ao clima atual. Esses modelos foram então explorados em futuros cenários do clima, trazendo resultados semelhantes entre si.

Até 2060, segundo o IPCC, as temperaturas médias devem subir em 2,7° C no norte da América do Sul, com aumento de 21 dias secos consecutivos na estação seca.

Uma vez que são necessários milhares ou milhões de anos para os animais se adaptarem a mudanças tão drásticas, os modelos apontam que apenas algumas poucas espécies encontrariam mais áreas climaticamente adequadas no futuro, entre elas tatus, cotias e veados, todas de grande porte. Entretanto, espécies de primatas, por exemplo, perderiam áreas adequadas.

Pequenos mamíferos, cujos indivíduos adultos têm menos de um quilo, serão os mais prejudicados. Esses animais constituem 54% dos mamíferos da Caatinga. No total, 12 espécies (12,8%) perderiam completamente os hábitats em 2060, no cenário mais otimista. Segundo o modelo mais pessimista, porém, seriam 28 espécies (30%) sem áreas adequadas até 2100.

Tatu galinha UFMG (<i>foto: Mário R. Moura/Unicamp</i>)

Rato-bico-de-lacre (Wiedomys pyrrhorhinos) faz parte dos 54% de pequenos mamíferos que serão mais prejudicadas com mudanças climáticas na Caatinga (foto: Sarah Mangia) 

Entre pequenos roedores e marsupiais, animais como a cuíca (Gracilinanus agilis), o rato-da-árvore (Rhipidomys mastacalis) e o rato-de-espinho (Trinomys albispinus) serão alguns dos mais prejudicados.

“Para 70% das comunidades de mamíferos, vai haver uma homogeneização, com poucas espécies generalistas substituindo as raras e especialistas. Isso traz a perda de funções ecológicas, como dispersão de sementes, e todo o ecossistema se torna menos resiliente”, conta Moura.

Em um trabalho anterior, Moura e outros coautores também utilizaram modelos estatísticos e bancos de dados para prever como as plantas da Caatinga seriam afetadas pelas mudanças climáticas.

Entre os resultados, também está prevista uma homogeneização de 40% das comunidades de plantas, com substituição de espécies arbóreas por gramíneas, por exemplo (leia mais em: agencia.fapesp.br/41840).

Zona de transição

Moura explica que, ainda que os mamíferos possam mudar comportamentos para escapar das maiores temperaturas, o período do dia com clima mais ameno poderá ser utilizado por muitas espécies ao mesmo tempo. Isso pode gerar maior competição por recursos, o que também pode afetar as chances de sobrevivência.

Em todos os cenários, a parte mais afetada do bioma será a leste. Nessa área ocorre a transição com a Mata Atlântica. A maior umidade trazida da costa tem como uma das consequências mais espécies vivendo ali.

“Essa também é a parte da Caatinga onde estão as maiores cidades da região. O desmatamento, a caça e outras práticas históricas contribuem para que a situação seja ainda mais complicada no local, o que pode amplificar os efeitos das mudanças climáticas”, avalia o pesquisador.

Por isso, os autores defendem que o sucesso de políticas socioambientais e de planejamento da conservação de longo prazo depende que previsões sobre a biodiversidade sejam consideradas.

Além do projeto coordenado por Moura, o trabalho recebeu financiamento por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido a Mathias Mistretta Pires, professor do IB-Unicamp e coautor do artigo.

O artigo Climate change should drive mammal defaunation in tropical dry forests pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.16979.

Bronzeamento Letal: Doença Bacteriana Ameaça Palmeiras nos EUA e Pode Chegar ao Brasil em Breve

Imagem meramente ilustrativa. Credito:Imagem de Tom por Pixabay

Julia Moióli | Agência FAPESP – Uma doença bacteriana conhecida como bronzeamento letal vem devastando cerca de 20 espécies de palmeiras no sul dos Estados Unidos nas últimas duas décadas. O fitopatógeno já está presente em países do Caribe e, em breve, poderá chegar ao Brasil.

Estudo conduzido pela bolsista de pós-doutorado da FAPESP Jordana Alves Ferreira mostrou que as plantas infectadas liberam altas concentrações de compostos voláteis capazes de alertar palmeiras saudáveis ao seu redor sobre uma possível ameaça. Esses gases, descritos pela primeira vez na revista científica Plants, poderão ser usados na fabricação de insumos para tratar a infecção.

Causado pelo fitoplasma Candidatus Phytoplasma aculeata e espalhado para a planta pelo inseto-vetor Haplaxius crudus durante sua alimentação, o bronzeamento letal causa o escurecimento das folhas, apodrecimento e morte da palmeira devido ao entupimento do fluxo do floema (tecido pelo qual a seiva é transportada). O processo é seguido pela queda da copa da palmeira Sabal palmetto, nativa da Flórida. Além de ser responsável por perdas econômicas significativas para empresas paisagísticas e de viveiros, também reduz a proteção que essas plantas oferecem contra enchentes por meio da evapotranspiração da água das chuvas.

No caso do Brasil, estima-se que os danos seriam significativos: o país possui cerca de 280 mil hectares cultivados com coqueiro e produz 2 bilhões de frutos por ano para alimentação, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A pesquisa desenvolvida por Ferreira na Embrapa Meio Ambiente teve o objetivo de buscar opções de tratamento para as palmeiras infectadas. Em trabalho anterior, conduzido na Universidade da Flórida, em Davie (Estados Unidos), com apoio de Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), a pesquisadora testou a aplicação de tratamentos com bioformulações diretamente dentro das plantas (técnica conhecida como endoterapia vegetal) usando um equipamento endoterápico pressurizado específico para palmeiras e desenvolvido no Brasil. Testes prévios, cujos resultados foram publicados na revista Analytical Methods, já haviam mostrado a capacidade da técnica de controlar lagartas de coqueiro, que causam prejuízo entre produtores nacionais, de forma rápida e com menos produtos.

No estudo mais recente, a bolsista desenvolveu um método de análise que envolve a técnica de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS, na sigla em inglês) e mostrou que as folhas das palmeiras infectadas liberam altas concentrações de biomarcadores voláteis (os compostos hexanal e E-2-hexenal) que avisam as plantas próximas sobre uma possível ameaça. Essas, por sua vez, passaram a liberar outros tipos de marcadores (3-hexenal e Z-3-hexen-1-ol), sabidamente emitidos por plantas sob estresse, caracterizando uma comunicação entre as plantas pelos voláteis. Já as palmeiras não infectadas ou ameaçadas não liberam os biomarcadores.

“A substância produzida pela própria planta na tentativa de se curar, defender e de alertar as demais é também um poderoso antibiótico, que pode ser utilizado no desenvolvimento de novas bioformulações para tratar as palmeiras usando a endoterapia vegetal”, afirma Ferreira, que publicou recentemente um artigo de revisão sobre a técnica na revista Agriculture.

Solução natural e de amplo uso

Apesar de estudos adicionais ainda serem necessários para detalhar a produção dos compostos voláteis, a descoberta abre caminho para uma série de possibilidades de tratamentos para plantas na agricultura. Exemplos são a avaliação de compostos que podem ser utilizados no tratamento de infecções, criação de estímulos para que as plantas gerem suas próprias defesas, desenvolvimento de impedimentos alimentares e atrativos para inimigos naturais de H. crudus.

Nos Estados Unidos, especificamente, a grande vantagem seria ter à mão uma substância natural alternativa ao antibiótico sintético tradicionalmente utilizado – a oxitetraciclina, não usada no Brasil –, capaz de causar problemas ambientais como a resistência que gera.

“É importante destacar ainda que tanto os voláteis descobertos quanto a endoterapia podem ser alternativas a serem testadas no tratamento de doença em outras plantas perenes”, completa Sônia Cláudia do Nascimento de Queiroz, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e supervisora do estudo.

O artigo Identification of Green-Leaf Volatiles Released from Cabbage Palms (Sabal palmetto) Infected with the Lethal Bronzing Phytoplasma pode ser lido em: www.mdpi.com/2223-7747/12/11/2164.