Onça-parda é resgatada na zona rural de Conceição das Alagoas e devolvida à natureza

Onça-parda é resgatada na zona rural de Conceição das Alagoas e devolvida à natureza

Uma vez foi contida de forma segura com o uso de anestésicos (Divulgação/MKT/Uniube)

Uma onça-parda fêmea, adulta e com cerca de 20 quilos, foi resgatada com sucesso no final da tarde desta quarta-feira (04/02), por volta das 17h, na rodovia MGQA-27, na zona rural de Conceição das Alagoas (MG). A operação foi coordenada por uma equipe do Hospital Veterinário da Uniube, com apoio de médicos-veterinários, alunos e bolsistas do curso de Medicina Veterinária.

O animal havia sido previamente capturado por um sitiante em uma chácara da região, que, ao perceber a presença da onça, foi acionado imediatamente pelas autoridades responsáveis. A contenção foi feita de forma segura com o uso de anestésicos, e o felino recebeu os primeiros atendimentos clínicos ainda no local.

Após a estabilização, uma vez foi encaminhada ao Hospital Veterinário da Uniube, onde passou por uma bateria de exames, incluindo radiografia, hemograma e ultrassonografia. Uma vez, que recebeu o nome de Laís, pesa 22 quilos e é considerada adulta, com idade estimada entre cinco e seis anos. Segundo os profissionais, ela não apresentou danos nem foi prenhe.

Os resultados dos exames laboratoriais e de imagem confirmaram que o animal se encontrava em boas condições físicas e de saúde. O médico-veterinário da Uniube, Claudio Yudi, explica que o aparecimento de onças na região não é incomum. Segundo ele, trata-se de uma onça-parda, também conhecida como Sussuarana, espécie bastante comum no Triângulo Mineiro.

“É uma espécie que se adapta facilmente a áreas periurbanas, próximas a zonas rurais e com vegetação. No caso desse resgate, por exemplo, ela estava caçando galinhas em uma chácara”, relata Yudi.

O veterinário também relembra que, no ano passado, um exemplar da mesma espécie foi atropelado na mesma região. “É uma área com grande presença de animais de médio e grande porte. O surgimento de onças nesses locais não é raro e reforça a importância do manejo adequado e da conscientização da população”, completa.

Com todas as parâmetros clínicos considerados normais, Laís foi reabilitada e devolvida ao seu habitat natural.

A soltura ocorreu na manhã desta sexta-feira (04/05), em uma área de reserva ambiental afastada da zona urbana do Triângulo Mineiro, indicada pela Polícia Militar de Meio Ambiente de Uberaba.

Daniela Brito

Colaboração Chile-Brasil avalia impactos da mudança climática em um dos locais mais intocados do mundo

Elton Alisson | Agência FAPESP – No extremo Sul das Américas está situada a região subantártica chilena, um dos lugares mais intocados do mundo. Por isso o local, onde está localizado o Cabo de Hornos, é considerado um laboratório natural para observar as causas e as consequências das mudanças climáticas globais em um ambiente pouco alterado diretamente pela ação humana.

Por meio da colaboração com cientistas da Universidade de Magallanes, do Chile, pesquisadores brasileiros têm realizado estudos na região desde o ano 2000.

A parceira, que já resultou na publicação de diversos artigos científicos, livros e convênios, ganhou impulso com a inauguração, em maio de 2023, do Centro Internacional do Cabo Horn para Estudos de Mudança Global e Conservação Biocultural (CHIC, na sigla em inglês).

Localizado em Porto Williams, no norte da Ilha Navarino, no arquipélago da Terra do Fogo, o CHIC servirá como uma base estratégica para a realização de pesquisas transdisciplinares em áreas como climatologia, biodiversidade marinha, glaciologia, biologia terrestre e educação.

Com um investimento de mais de 10 bilhões de pesos chilenos – equivalente a R$ 300 milhões – por um período de dez anos, renovável por mais cinco anos, o projeto representa um dos maiores investimentos já feitos em ciência e tecnologia na região.

“Por meio do CHIC um grupo de mais de 80 pesquisadores, vinculados à Universidade de Magallanes e a outras instituições internacionais, tem desenvolvido um trabalho interdisciplinar inédito, que integra ciências, educação, artes e ética ambiental em programas de pesquisa, educação ambiental, conservação e turismo sustentável”, diz à Agência FAPESP Flávio Berchez, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e um dos participantes do projeto.

Em outubro de 2023, Berchez e mais seis pesquisadores brasileiros participaram no CHIC de um workshop da rede binacional Chile-Brasil para Estudos dos Ecossistemas Marinhos Subantárticos com o objetivo de planejar novas linhas de pesquisa colaborativa.

Um dos estudos que os pesquisadores pretendem realizar por meio dos projetos em parceria será voltado a investigar os padrões de distribuição de espécies de algas marinhas e microrganismos associados a elas ao longo da costa do Atlântico Sul, por exemplo.

Com as mudanças climáticas globais, espécies de algas marinhas e seus microrganismos associados podem migrar para regiões com temperaturas mais amenas, explica Mariana Cabral de Oliveira, professora do IB-USP e integrante da colaboração.

“Seria muito interessante verificar as barreiras biogeográficas existentes para essa migração no Atlântico Sul de massas de algas pardas flutuantes, presentes no Brasil e no Chile, por exemplo. É importante avaliar o impacto da chegada dessas massas na flora local”, indica a pesquisadora.

Ameaça às algas gigantes

De acordo com Oliveira, no Cabo de Hornos são encontrados bosques submarinos de kelps, formados por espécies de algas gigantes que chegam a medir até 60 metros.

Consideradas “engenheiras ambientais”, por estruturar ecossistemas inteiros, essas algas fornecem continuamente abrigo, alimento, proteção e acomodação para reprodução de diversos organismos, dentre eles muitos de interesse pesqueiro, como peixes e caranguejos como a Centolla ou “caranguejo-rei”. Além disso, estudos mostram que as algas gigantes constituem protetores naturais contra a radiação ultravioleta (UV) para diversos organismos marinhos ao filtrar a radiação solar.

Devido a uma diferença genética, esses bosques submarinos no Cabo de Hornos são perenes, ao contrário dos demais do Chile. Alguns estudos têm mostrado, contudo, que eles já podem estar sendo afetados pelas mudanças climáticas.

O derretimento de geleiras a um ritmo mais acelerado tem levado uma quantidade maior de sedimentos de água doce para regiões costeiras. Na coluna d’água, a presença desses sedimentos pode sombrear as populações de algas gigantes.

“Isso pode causar a perda ou outros efeitos negativos nessas algas. Precisamos estudar isso agora com maior nível de detalhe porque essas mudanças já estão ocorrendo”, afirma Oliveira.

O aumento da temperatura do mar também tem causado a diminuição da disponibilidade de nutrientes, encontrados em maior abundância em águas mais frias, e afetado o crescimento das algas gigantes.

Sob temperaturas mais quentes, esses organismos também aumentam a taxa respiratória e, consequentemente, têm crescimento mais lento, explica Berchez.

“Esses e outros fatores podem impactar os bosques de algas gigantes naquela região. Esse fenômeno foi detectado, pela primeira vez, na Austrália, em 2011, e também ocorre em outros lugares. É preciso avaliar se já está ocorrendo na região do Cabo de Hornos”, sublinha.

Emissão de gases de efeito estufa

Além do ambiente marinho, as mudanças climáticas devem impactar o ambiente terrestre da região, também altamente isolado geograficamente, tendo ao lado norte tanto a região dos Andes e seus glaciares permanentes como também a região extremamente seca da Patagônia argentina e, nas demais direções, o oceano.

Uma das principais preocupações está relacionada ao aumento da temperatura nas extensas áreas da região cobertas por turfeiras (a turfa é um material de origem vegetal, parcialmente decomposto, encontrado geralmente em regiões pantanosas e também em montanhas). O aquecimento tem causado o degelo e a decomposição das turfeiras e, consequentemente, a emissão de metano, um dos mais potentes gases de efeito estufa (GEE).

“Isso já está ocorrendo em lugares como a Sibéria. No início do processo de decomposição, as turfeiras passam a emitir metano, que é um gás de efeito estufa muito mais intenso do que o dióxido de carbono. Essas emissões já vêm sendo medidas”, afirma Berchez.

A colaboração brasileira também é integrada por Pio Colepicolo Neto, professor do Instituto de Química da USP; e Luiz Mafra, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), além de Oreste Alarcon e Paulo Horta, professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza?

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A construção de uma nova forma de pensar a relação entre humanos e natureza, para que possa haver um futuro, e um futuro desejável, foi o tema central da 7ª Conferência FAPESP 2023, ministrada na sexta-feira (27/10) por Laura Maureen Pereira. Pesquisadora do Global Change Institute, da Wits University, na África do Sul, ela já realizou pesquisas também em Moçambique, Nigéria, Quênia, Colômbia e Brasil. E trouxe ao auditório da FAPESP uma visão multidisciplinar e positiva sobre como ultrapassar a crise atual e promover a coexistência e a sustentabilidade de ecossistemas e sociedades.

Pereira iniciou sua conferência, que teve como tema “Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza? Operacionalização do Nature Futures Framework”, propondo um exercício mental para a plateia: “Fechem seus olhos e pensem agora em como São Paulo se parecerá em 2100”. E, apontando o contraste entre o futuro desejável que podemos imaginar e o contexto atual, de incêndios, inundações, ondas de calor, furacões, extinção de espécies em massa e comportamentos humanos enlouquecidos, falou sobre a necessidade de cultivar a habilidade de imaginar.

“Antes de pensar em caminhos ou intervenções, precisamos construir capacidades de visualizar para onde queremos ir e com o que esses futuros transformados poderiam se parecer”, disse. E apresentou o trabalho que está sendo realizado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), organização independente voltada para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade, bem-estar humano de longo prazo e desenvolvimento sustentável. Criada em 2012, fora do âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), a IPBES reúne atualmente representantes dos governos de 145 países.

Em avaliações metodológicas feitas em 2016, a IPBES destacou que, embora os cenários sejam ferramentas úteis para a definição de políticas, poucos cenários apresentam futuros positivos. Em sua maioria, limitam-se a avaliar impactos sobre a natureza e tendem a ser negativos. Diferentes políticas e respostas relativas à natureza são, neles, mal representadas.

Três anos mais tarde, em 2019, a IPBES enfatizou a necessidade de novos cenários capazes de impulsionar ações multiculturais diversificadas para engajar a sociedade em mudanças de estilo de vida e reverter o declínio da biodiversidade, rumo a um ideal de convivência harmoniosa entre humanos e natureza em 2050.

“Foi nesse contexto que um grupo de especialistas da IPBES se encarregou de estabelecer uma nova Estrutura de Cenários Globais [Global Scenarios Framework], centrada na natureza, positiva e que reconheça a existência de diferentes visões de mundo, sistemas de conhecimento e maneiras de valorizar a natureza”, afirmou Pereira.

Foi dessa iniciativa que surgiu a Nature Futures Framework (NFF, Estrutura de Futuros da Natureza), “uma ferramenta flexível para apoiar o desenvolvimento de cenários e modelos de futuros desejáveis para as pessoas, a natureza e a Mãe Terra”, conforme a definição da própria IPBES.

O modelo é o de um triângulo equilátero, representando três perspectivas de valorização da natureza. A perspectiva “natureza pela natureza” enfoca a natureza como tendo um valor intrínseco, baseado na diversidade de espécies, hábitats, ecossistemas e processos, sendo capaz de funcionar de forma autônoma. A perspectiva “natureza como cultura” destaca principalmente a visão de sermos “um com a natureza”, expressando os valores de tradições, culturas e sociedades que se consideram interligadas com a natureza na formação de paisagens bioculturais. A perspectiva “natureza para a sociedade” destaca os benefícios utilitários e instrumentais que a natureza proporciona às pessoas e às sociedades.

As perspectivas não são excludentes. E círculos traçados a partir dos vértices do triângulo se interseccionam, possibilitando uma ampla gama de cenários complexos.

Pereira descreveu a linha do tempo de desenvolvimento do NFF, “que foi refinado em encontros e workshops realizados em diversos países e em diálogos on-line ocorridos durante a pandemia”. E apresentou representações pictóricas altamente elaboradas feitas por artistas ancorados em culturas tradicionais da Ásia, África e América. A visão multicultural, o acolhimento das culturas indígenas e a valorização do conhecimento local são componentes fortes da iniciativa. A passagem do NFF aos cenários propriamente ditos é o passo seguinte a ser dado ao longo dos próximos dois anos.

A pesquisadora explorou várias possibilidades de aplicação do NFF, tanto em escala global quanto local. E abriu em seguida uma sessão de perguntas e respostas.

“Os humanos mudaram a maneira como o mundo funciona. Agora, precisam mudar também a maneira como pensam sobre isso”: com esta frase emblemática, atribuída a um texto publicado em The Economist (2011), Laura Maureen Pereira encerrou sua apresentação.

O evento teve a presença de Marcio de Castro, diretor científico da FAPESP, e foi moderado por Carlos Alfredo Joly, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-integrante da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.

A 7ª Conferência FAPESP 2023, “Por que precisamos de cenários transformadores para as pessoas e a natureza? Operacionalização do Nature Futures Framework”, pode ser assistida na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=T8CUrZTpp9U. 

Estudo traça perfil dos poluentes encontrados em uma das principais bacias hidrográficas de São Paulo

Imagem de congerdesign por Pixabay

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A bacia hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – também chamada de “bacia PCJ” – estende-se por 76 municípios do Estado de São Paulo e atende a mais de 5,8 milhões de pessoas. Com uma área de drenagem superior a 14 mil quilômetros quadrados, suas águas são muito demandadas pela agricultura, pela indústria e pelo consumo da população. Em função disso, e no contexto da crise climática global, a bacia sofre atualmente com escassez hídrica. Mas esse não é o único nem o maior dos problemas: o grande conjunto de rios, riachos e córregos que compõem a bacia encontra-se também fortemente contaminado por efluentes agrícolas, industriais e domésticos.

As expressões visíveis dessa poluição já foram objeto de várias reportagens da mídia. Mas faltava um estudo em profundidade que identificasse as principais áreas contaminadas e a natureza dos contaminantes individuais e das misturas de contaminantes; que calculasse sua concentração, frequência e toxicidade; e que apontasse seus potenciais riscos para humanos e organismos aquáticos. Esse estudo foi feito agora por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e parceiros de outras instituições do país e do exterior.

O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (14/50951-4, 21/12484-9 e 20/14988-1). Artigo relatando os resultados foi publicado no periódico Chemosphere.

“Além de contaminantes tradicionais, já bastante conhecidos e sujeitos à legislação, encontramos também contaminantes emergentes, ainda não legislados, que apresentam toxicidade em condições de exposição crônica. Nossa pesquisa forneceu o primeiro retrato da ocorrência de compostos do grupo dos PFAS em rios do Estado de São Paulo”, diz Cassiana Carolina Montagner, professora do Instituto de Química da Unicamp e coordenadora do estudo.

Os PFAS são um grupo com milhares de compostos químicos sintéticos, perfluoroalquilados, utilizados pela indústria em uma grande variedade de produtos com o objetivo de torná-los antiaderentes, impermeáveis e resistentes a manchas. A utilização mais conhecida ocorre nos utensílios antiaderentes recobertos por teflon.

Informe da United States Environmental Protection Agency (Usepa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) lista vários problemas de saúde humana comprovadamente associados à exposição a PFAS. Entre eles, o aumento do risco de alguns tipos de câncer, incluindo de rim, próstata e testículo. “A ocorrência de sete PFAS em diferentes rios do Estado de São Paulo foi relatada pela primeira vez em nosso estudo”, afirma Montagner.

Mas isso não é tudo. “Detectamos também muitos outros contaminantes, compondo um total de 45. Os pesticidas agrícolas atrazina, carbendazim, tebutiurom e 2,4-D foram os que apresentaram a maior frequência de detecção, tendo sido encontrados em 100% das amostras coletadas. A mesma frequência, de 100%, foi detectada também para a cafeína e o bisfenol A [BPA], levados aos rios pelos esgotos domésticos”, acrescenta a pesquisadora.

Aqui é importante dizer que, embora bem tolerada pelos humanos, a cafeína pode ser bastante prejudicial para a biota aquática, como ressalta Montagner. Já o bisfenol A é uma substância química orgânica, o 2,2-bis(4-hidroxifenil) propano, utilizada na fabricação de polímeros e revestimentos de alto desempenho. Plásticos empregados em eletrodomésticos, computadores, brinquedos, talheres descartáveis, mamadeiras, revestimentos de latas de comida e bebida e resinas epóxi contêm BPA. Ele aparece também como componente do PVC maleável em papéis térmicos, como os extratos bancários e os comprovantes de pagamento liberados por caixas eletrônicos e máquinas para leitura de cartões.

Para avaliar a dimensão dos impactos causados por todos esses contaminantes, é preciso considerar que a região servida pela bacia PCJ é um importante polo agrícola e industrial e também a sede de cidades de grande porte. A área responde por 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Destaques são a produção de cana-de-açúcar no município de Piracicaba, a indústria têxtil no município de Americana e a grande concentração populacional no município de Campinas.

“Além de ser a principal fonte de água potável de toda a área, a bacia do PCJ fornece água para irrigação, que não recebe nenhum tratamento antes de ser utilizada nos campos agrícolas. Ao mesmo tempo, a região abriga muitas cidades pequenas que lançam esgoto quase in natura nos rios”, informa Montagner.

A pesquisadora enfatiza que contaminantes emergentes, como pesticidas, hormônios, produtos farmacêuticos, produtos químicos industriais e PFAS, estão sendo liberados na bacia do PCJ, sem que a atual legislação brasileira exija o seu monitoramento.

“Em nosso estudo, coletamos amostras em 15 pontos diferentes da bacia. E avaliamos os contaminantes presentes considerando três fatores: concentração, frequência e toxicidade. Além das altas frequências já mencionadas, obtivemos elevados quocientes de risco para os herbicidas diuron e atrazina, além do inseticida imidacloprido”, conta.

E conclui: “Além de velhos problemas de poluição não resolvidos, como a contaminação por coliformes fecais, por exemplo, há novos problemas agora causados pela presença dos contaminantes emergentes, que são produzidos para garantir a qualidade de vida moderna, mas chegam ao ambiente devido à má gestão dos resíduos sólidos e saneamento ineficiente. Nosso estudo sugere que é necessário estabelecer um programa de monitoramento abrangente para garantir a proteção da vida aquática e da saúde humana”.

Monitoramento

Procurada pela reportagem, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou em nota que, atualmente, são feitas medições trimestrais em 519 pontos de amostragem, dos quais 91 estão distribuídos na bacia PCJ. Além de parâmetros tradicionais, como matéria orgânica, nutrientes, coliformes e metais, a Cetesb faz medições de agrotóxicos e de alguns compostos emergentes, quantificados indiretamente por meio de dois ensaios: um que mede atividade estrogênica, para a detecção de compostos do tipo interferentes endócrinos (que mimetizam os hormônios femininos, como o BPA); e outro que mensura a atividade de glicorticoides, para a detecção de medicamentos da classe dos anti-inflamatórios.

O texto afirma ainda que os agrotóxicos (42 diferentes ativos) são medidos pela Cetesb desde 2017, em trechos de rios localizados em bacias com uso do solo predominantemente agrícola.

“Na bacia hidrográfica do PCJ, os agrotóxicos são monitorados desde 2018 no trecho de cabeceira do rio Corumbataí […], município de Analândia, com cerca de 65% da área da bacia destinada ao uso agrícola. Os agrotóxicos mais frequentemente detectados nesse trecho do rio Corumbataí no período de 2018 a 2022 foram o inseticida imidacloprida [bastante frequente também nas amostras analisadas na Unicamp] e o herbicida tebutiurom [este encontrado em 100% das amostras do estudo]. As concentrações de imidacloprida estiveram frequentemente acima do limite de ecotoxicidade crônico para invertebrados aquáticos da Usepa [Office of Pesticides Program, OPP], que é de 10 ng/L [nanograma por litro]. Nesse mesmo período, não foram detectados nesse trecho os agrotóxicos 2,4 D e atrazina [ambos detectados em 100% das amostras analisadas na Unicamp], que são contemplados com padrões de qualidade para a proteção da vida aquática pela Resolução Federal [Resolução Conama n.o357/2005].”

Por último, a Cetesb informa que não há valores legislados para a atividade estrogênica e os glicocorticoides. “Os resultados desses dois ensaios, obtidos ao longo dos últimos cinco anos na bacia hidrográfica do PCJ, indicaram valores, em ambos os ensaios, considerados baixos ou de baixa relevância, com base nos estudos já realizados e na experiência internacional.”

O artigo Uncovering the impact of agricultural activities and urbanization on rivers from the Piracicaba, Capivari, and Jundiaí basin in São Paulo, Brazil: A survey of pesticides, hormones, pharmaceuticals, industrial chemicals, and PFAS pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653523022233?via%3Dihub. 

El Niño, mudanças climáticas e desmatamento: cientistas explicam o que pode estar por trás da seca da Amazônia

Julia Moióli | Agência FAPESP – A situação da Amazônia é crítica: os Estados do Acre, Amapá, Amazonas e Pará tiveram os menores índices de chuva desde 1980 entre os meses de julho e setembro. E o rio Negro registrou este mês o nível mais baixo de água desde 1902, quando teve início a medição. A mais intensa seca na região em cem anos é consequência da influência do fenômeno El Niño, mas também há indícios de estar associada às mudanças climáticas. A avaliação foi feita por especialistas que participaram do webinário “Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño”, promovido pela FAPESP em 17 de outubro.

O El Niño é um fenômeno que envolve alterações na temperatura do oceano Pacífico Tropical e no comportamento da atmosfera e contribui para alterações nos ventos e na precipitação em várias áreas do planeta. De modo geral, modifica o comportamento dos sistemas frontais (sucessões de frentes), que se tornam mais frequentes e persistentes sobre a região Sul, provocando ali um aumento das precipitações e diminuição das chuvas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

“Em anos de El Niño, portanto, o fenômeno costuma provocar chuvas abaixo da média na região da Amazônia, não apenas no Amazonas, mas também nos outros Estados da região Norte, bem como na região Nordeste”, explicou Regina Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Neste ano, observamos ainda que os impactos do El Niño podem estar combinados com a situação do oceano Atlântico Tropical Norte, que influencia no aumento das chuvas acima do Equador, mas diminui ainda mais as precipitações na Amazônia. Portanto, precisamos aprofundar os estudos para avaliar a associação com as mudanças climáticas. A situação da escassez de chuvas precisa ser acompanhada mês a mês, inclusive para subsidiar a adoção de ações adequadas para mitigar os seus impactos.”

Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou um estudo recente que estima perdas econômicas globais – considerando o Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países – de aproximadamente US$ 5 trilhões ao ano relacionadas aos El Niños de 1982-1983 e 1997-1998, com efeitos que duram até cinco anos.

“Estamos caminhando para outro evento desse porte”, alertou. “É importantíssimo frisar que, embora seja um fenômeno natural do sistema climático, as mudanças climáticas decorrentes de atividades humanas alteram sua frequência e intensidade. Estudos trazem evidências de que haverá um aumento na magnitude dos El Niños”, disse Rodrigues.

Na avaliação de Gilvan Sampaio, coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há uma tendência bastante clara de os eventos extremos se tornarem cada vez mais frequentes e intensos. “Estudos indicam que, até o fim do século, viveremos em um clima de El Niño semipermanente”, afirmou.

“Estudos mostram que o aquecimento da atmosfera se expande da região tropical para médias latitudes, impactando o regime de chuvas”, reforçou Tércio Ambrizzi, coordenador do Grupo de Estudos do Clima do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O desmatamento da Amazônia também agrava a seca, já que diminui a evapotranspiração, isto é, a emissão de vapor d’água pela floresta, que forma as chuvas.

Outros aspectos importantes que merecem atenção este ano na avaliação dos especialistas: antecipação da estação seca, que costuma ocorrer entre novembro e março, para abril a outubro; excesso de chuvas na região Sul, especialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina; e temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil.

Impactos sociais e econômicos

A seca já impacta a população local na Amazônia: comunidades ribeirinhas ficam isoladas por conta da diminuição dos níveis dos rios; botos e peixes morrem em razão da temperatura mais alta da água; a produção de energia elétrica é comprometida; e queimadas prejudicam a qualidade do ar.

Embora as consequências econômicas possam durar anos e se complicarem num futuro próximo, alguns problemas são sentidos desde agora: em setembro, 79 municípios da região Norte tiveram mais de 80% de suas áreas agrícolas afetadas, de acordo com o Cemaden.

Alvalá reforça também que a navegabilidade dos rios vem sendo afetada, causando transtornos em uma região que depende de navegabilidade para transporte de diversos insumos. Fabricantes da Zona Franca de Manaus enfrentam dificuldades para receber componentes para a produção e distribuição de produtos para o resto do país.

“Como não é possível garantir que as chuvas voltarão a níveis normais, é preciso atuar na gestão da crise imposta pela seca para diminuir seus impactos”, ponderou Alvalá. “Designar equipes para a fiscalização das queimadas e o combate ao fogo contribui para reduzir a poluição atmosférica que impacta a saúde das pessoas e, consequentemente, reduz a demanda por insumos importantes para a área de saúde”, exemplificou.

Embora esse tipo de ação imediata pareça trivial, vale lembrar que a região da Amazônia se insere em uma área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o que demanda ações coordenadas envolvendo diversos órgãos e atores. Nesse sentido, Alvalá destacou os esforços do governo federal, que tem organizado reuniões periódicas para monitoramento da seca na região Norte e articulação e ações no âmbito do poder executivo federal.

Os pesquisadores apontam a necessidade de intensificar as estratégias de planejamento: “Temos um conhecimento muito claro dos impactos climáticos e do ônus que o El Niño ocasiona”, afirmou Ambrizzi. “Portanto, é possível se preparar com antecedência de três a seis meses, especialmente no caso das defesas civis.”

Os cientistas ressaltaram a importância de estratégias focadas no planejamento urbano, com planos diretores mais eficientes, para que a população possa conviver com o clima mais seco nos próximos anos.

Sampaio citou, por exemplo, possíveis alterações nas variedades agrícolas cultivadas. “O plantio de milho e feijão no Nordeste, que demanda quantidade considerável de água, provavelmente precisará ser substituído.”

Difusão do conhecimento

Promovido pela equipe do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG https://mudancasclimaticas.fapesp.br/), o webinário analisou a intensificação dos eventos climáticos extremos nas últimas décadas e sua associação com fenômenos meteorológicos recorrentes, entre eles o El Niño.

Apresentado por Maria de Fátima Andrade, membro da coordenação do PFPMCG, e moderado por Ambrizzi, o evento foi transmitido pelo canal da Agência FAPESP no YouTube.

Em sua apresentação, o professor do IAG-USP Ricardo Trindade destacou a importância estratégica do PFPMCG, que, há 15 anos, busca entender como as alterações climáticas acontecem, como mitigá-las e qual é o papel do ser humano nos eventos relacionados.

Outros palestrantes, além dos já mencionados, foram Renata Gonçalves Tedeschi, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale; e Marcelo Romero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e membro do Comitê de Mudanças Climáticas da Prefeitura do Município de São Paulo.

Eventos extremos no Brasil e o impacto nas cidades

Gilvan Sampaio, que é autor de uma série de livros sobre mudanças climáticas, e Renata Coutinho, que desde 2002 estuda a influência dos fenômenos El Niño e La Niña sobre a precipitação e seus extremos na América do Sul, dividiram a apresentação, que comentou estudos recentes sobre a importância do El Niño na situação climática extrema atual. Trataram ainda do fenômeno chamado de “Super El Niño”, que deve ser o caso deste ano, com anomalias da temperatura da superfície do mar acima de 2° C ou mais.

Na sequência, Romero expôs o painel “Medidas de mitigação e resposta a eventos extremos nas cidades”: “As cidades são o local escolhido pela maior parte da população mundial para viver, e essa tendência vem aumentando”, afirmou.

Romero chamou atenção para dois relatórios elaborados pelo United Nations Environment Programme (Unep), o programa para o meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU): o primeiro sobre tendências do clima e medidas de mitigação, com destaque para aspectos como energias renováveis (indústria, transporte, edifícios); e o segundo sobre medidas de adaptação para tornar as mudanças climáticas menos agressivas, sobretudo nos ambientes urbanos. E, considerando que o Acordo de Paris dificilmente será cumprido, destacou a importância de medidas de crosscutting, ou seja, que unem estratégias de mitigação e adaptação, como é o caso do plantio de áreas verdes, restauração de rios e agricultura urbana.

Coube a Regina Alvalá apresentar um panorama dos impactos dos eventos extremos mais recentes, associados ao El Niño atualmente em curso. A pesquisadora citou números alarmantes: “Entre os dias 1 e 4 de setembro, foram registrados aproximadamente 300 milímetros de chuvas, que impactaram 103 cidades da região do Rio Grande do Sul. Isso é praticamente o dobro da média climatológica esperada para o mês de setembro”.

Além disso, o Cemaden emitiu para o mês de setembro 173 alertas, 75% deles para municípios da região Sul, e registrou 194 eventos, dos quais 87% estavam associados a inundações e deslizamentos de terra.

Alvalá trouxe ainda dados sobre o monitoramento das condições atuais de seca, e sobre o risco de seca na agricultura familiar, este incluindo a severidade e a vulnerabilidade socioeconômica que varia de região para região (apesar de ser mais impactante no Nordeste, também é significativa no Norte, mas menos expressiva no Sul); sobre o volume de energia armazenada para diferentes sistemas de reservatórios (diminuição do volume de energia armazenada nas regiões Norte e Nordeste e aumento na região Sul); e sobre o risco de fogo, com mais de 340 municípios com níveis de alerta alto.

O webinário Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño está disponível na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=_1ddjHDQhNk. 

Mudanças climáticas podem levar à perda de mais de 90% das comunidades de mamíferos da Caatinga

Imagem de DAVISON ALVES por Pixabay

André Julião | Agência FAPESP – O cenário de mudanças climáticas previsto para a Caatinga é catastrófico para a maioria das espécies de mamíferos terrestres que habitam a região.

Em estudo publicado nesta terça-feira (17/10) na revista Global Change Biology, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e das federais da Paraíba (UFPB) e de Minas Gerais (UFMG) preveem a perda de 91,6% das comunidades desses animais no bioma, com 87% das espécies perdendo hábitat ainda em 2060.

“Esse é o cenário otimista, em que a humanidade cumpre o Acordo de Paris, reduz as emissões de gases do efeito estufa e diminui o ritmo do aquecimento previsto para as próximas décadas”, explica Mário Ribeiro de Moura, pesquisador do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp apoiado pela FAPESP e coordenador do estudo.

A equipe de pesquisadores cruzou as mais recentes previsões de temperaturas futuras divulgadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), com bancos de dados de ocorrência de espécies de mamíferos na Caatinga.

Foram utilizados diferentes modelos estatísticos para capturar as tolerâncias fisiológicas das espécies ao clima atual. Esses modelos foram então explorados em futuros cenários do clima, trazendo resultados semelhantes entre si.

Até 2060, segundo o IPCC, as temperaturas médias devem subir em 2,7° C no norte da América do Sul, com aumento de 21 dias secos consecutivos na estação seca.

Uma vez que são necessários milhares ou milhões de anos para os animais se adaptarem a mudanças tão drásticas, os modelos apontam que apenas algumas poucas espécies encontrariam mais áreas climaticamente adequadas no futuro, entre elas tatus, cotias e veados, todas de grande porte. Entretanto, espécies de primatas, por exemplo, perderiam áreas adequadas.

Pequenos mamíferos, cujos indivíduos adultos têm menos de um quilo, serão os mais prejudicados. Esses animais constituem 54% dos mamíferos da Caatinga. No total, 12 espécies (12,8%) perderiam completamente os hábitats em 2060, no cenário mais otimista. Segundo o modelo mais pessimista, porém, seriam 28 espécies (30%) sem áreas adequadas até 2100.

Tatu galinha UFMG (<i>foto: Mário R. Moura/Unicamp</i>)

Rato-bico-de-lacre (Wiedomys pyrrhorhinos) faz parte dos 54% de pequenos mamíferos que serão mais prejudicadas com mudanças climáticas na Caatinga (foto: Sarah Mangia) 

Entre pequenos roedores e marsupiais, animais como a cuíca (Gracilinanus agilis), o rato-da-árvore (Rhipidomys mastacalis) e o rato-de-espinho (Trinomys albispinus) serão alguns dos mais prejudicados.

“Para 70% das comunidades de mamíferos, vai haver uma homogeneização, com poucas espécies generalistas substituindo as raras e especialistas. Isso traz a perda de funções ecológicas, como dispersão de sementes, e todo o ecossistema se torna menos resiliente”, conta Moura.

Em um trabalho anterior, Moura e outros coautores também utilizaram modelos estatísticos e bancos de dados para prever como as plantas da Caatinga seriam afetadas pelas mudanças climáticas.

Entre os resultados, também está prevista uma homogeneização de 40% das comunidades de plantas, com substituição de espécies arbóreas por gramíneas, por exemplo (leia mais em: agencia.fapesp.br/41840).

Zona de transição

Moura explica que, ainda que os mamíferos possam mudar comportamentos para escapar das maiores temperaturas, o período do dia com clima mais ameno poderá ser utilizado por muitas espécies ao mesmo tempo. Isso pode gerar maior competição por recursos, o que também pode afetar as chances de sobrevivência.

Em todos os cenários, a parte mais afetada do bioma será a leste. Nessa área ocorre a transição com a Mata Atlântica. A maior umidade trazida da costa tem como uma das consequências mais espécies vivendo ali.

“Essa também é a parte da Caatinga onde estão as maiores cidades da região. O desmatamento, a caça e outras práticas históricas contribuem para que a situação seja ainda mais complicada no local, o que pode amplificar os efeitos das mudanças climáticas”, avalia o pesquisador.

Por isso, os autores defendem que o sucesso de políticas socioambientais e de planejamento da conservação de longo prazo depende que previsões sobre a biodiversidade sejam consideradas.

Além do projeto coordenado por Moura, o trabalho recebeu financiamento por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido a Mathias Mistretta Pires, professor do IB-Unicamp e coautor do artigo.

O artigo Climate change should drive mammal defaunation in tropical dry forests pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.16979.

Novo mapa traz o levantamento total da biomassa da Floresta Amazônica

Distribuição da biomassa situada acima do solo na Amazônia, em toneladas por hectare. Note-se a concentração relativamente mais baixa ao longo dos rios e riachos, cercados por vegetação ripária (imagem: Jean Pierre Ometto Et al./Scientific Data)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – No contexto da grave crise vivida pela Amazônia, uma boa notícia é a divulgação de um novo mapa de toda a biomassa da floresta situada acima do solo. Combinando varredura por lasers aerotransportados, imagens de satélite e inventários de campo geolocalizados, tudo isso integrado por tratamento computacional pesado com aprendizado de máquina, o mapa constitui o maior levantamento de biomassa em floresta tropical do mundo.

Resultados da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram publicados no periódico Scientific Data, do grupo Nature.

“Nosso trabalho estimou a biomassa total da Floresta Amazônica, com base no mapeamento de 3,6 mil quilômetros quadrados por meio de transectos [faixas de terreno ao longo das quais são registradas e contabilizadas ocorrências de interesse] distribuídos por todas as categorias de vegetação da região. E mostrou uma concentração média de biomassa de 174 toneladas por hectare e um máximo de 518 toneladas por hectare”, conta Jean Ometto, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), integrante do comitê de coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e primeiro autor do artigo.

O levantamento principal foi feito mediante varredura por lasers aerotransportados. Em duas campanhas consecutivas (2016/2017 e 2017/2018) foram coletados dados de 901 transectos distribuídos por todas as partes da floresta. Cada transecto cobria uma área de, no mínimo, 375 hectares, em retângulo de 300 metros de largura por 12,5 quilômetros de comprimento. E foi sobrevoado a baixa altitude (600 metros) por avião Cessna equipado com sensor Lidar (do inglês Light Detection and Ranging). Emitindo, em média, oito pulsos de laser por metro quadrado, o equipamento permitiu determinar as alturas, diâmetros e densidades das árvores existentes no setor.

“Os números obtidos nos 901 transectos foram integrados com dados do radar Palsar [Phased Array L-band Synthetic Aperture Radar], transportado pelo satélite Alos [Advanced Land Observing Satellite]; com índices de vegetação fornecidos pelo satélite Modis [Moderate-Resolution Imaging Spectroradiometer]; e com informações de precipitação da missão TRMM [Tropical Rainfall Measuring Mission]. E os resultados foram extrapolados para a floresta toda. O tratamento matemático nos permitiu estimar, com bastante precisão, o conteúdo de biomassa da floresta não desmatada – da ordem de 75 bilhões de toneladas [lembrando que essa é a biomassa da floresta acima do solo, não considerando as raízes]”, afirma o pesquisador.

Como a Amazônia passou por um intenso processo de desmatamento no quadriênio 2019-2022, o valor total da biomassa é, hoje, certamente menor. Nas áreas desmatadas, o cruzamento dos dados do mapa com informações de desmatamento providas pelo sistema Prodes, do Inpe, permite calcular, com maior precisão, a perda de biomassa e a correspondente emissão de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera.

“Na verdade, nosso objetivo não foi criar um mapa estático, mas produzir uma série histórica. Refazer o mapa em um ou dois anos nos permitirá saber se está ocorrendo perda ou ganho de biomassa”, comenta Ometto.

Neste momento, em que há fortes alertas de que a Amazônia pode estar chegando perto de um ponto de não retorno, deixando de ser um sumidouro para se tornar um emissor de carbono para a atmosfera, e com o risco de sua biomassa se degradar em outro tipo de estrutura florestal, o mapa fornece informações críticas para a tomada de decisões relativas ao planejamento, conservação e manejo sustentável.

Adicionalmente, a pesquisa possibilitou algumas descobertas muito interessantes, como a de geoglifos pré-colombianos, que atestam o povoamento relativamente denso da Amazônia no passado, ou a da árvore mais alta da floresta, um majestoso angelim vermelho de 88,5 metros de altura.

O estudo A biomass map of the Brazilian Amazon from multisource remote sensing, que também recebeu financiamento do Fundo Amazônia, pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41597-023-02575-4.

Bronzeamento Letal: Doença Bacteriana Ameaça Palmeiras nos EUA e Pode Chegar ao Brasil em Breve

Imagem meramente ilustrativa. Credito:Imagem de Tom por Pixabay

Julia Moióli | Agência FAPESP – Uma doença bacteriana conhecida como bronzeamento letal vem devastando cerca de 20 espécies de palmeiras no sul dos Estados Unidos nas últimas duas décadas. O fitopatógeno já está presente em países do Caribe e, em breve, poderá chegar ao Brasil.

Estudo conduzido pela bolsista de pós-doutorado da FAPESP Jordana Alves Ferreira mostrou que as plantas infectadas liberam altas concentrações de compostos voláteis capazes de alertar palmeiras saudáveis ao seu redor sobre uma possível ameaça. Esses gases, descritos pela primeira vez na revista científica Plants, poderão ser usados na fabricação de insumos para tratar a infecção.

Causado pelo fitoplasma Candidatus Phytoplasma aculeata e espalhado para a planta pelo inseto-vetor Haplaxius crudus durante sua alimentação, o bronzeamento letal causa o escurecimento das folhas, apodrecimento e morte da palmeira devido ao entupimento do fluxo do floema (tecido pelo qual a seiva é transportada). O processo é seguido pela queda da copa da palmeira Sabal palmetto, nativa da Flórida. Além de ser responsável por perdas econômicas significativas para empresas paisagísticas e de viveiros, também reduz a proteção que essas plantas oferecem contra enchentes por meio da evapotranspiração da água das chuvas.

No caso do Brasil, estima-se que os danos seriam significativos: o país possui cerca de 280 mil hectares cultivados com coqueiro e produz 2 bilhões de frutos por ano para alimentação, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A pesquisa desenvolvida por Ferreira na Embrapa Meio Ambiente teve o objetivo de buscar opções de tratamento para as palmeiras infectadas. Em trabalho anterior, conduzido na Universidade da Flórida, em Davie (Estados Unidos), com apoio de Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), a pesquisadora testou a aplicação de tratamentos com bioformulações diretamente dentro das plantas (técnica conhecida como endoterapia vegetal) usando um equipamento endoterápico pressurizado específico para palmeiras e desenvolvido no Brasil. Testes prévios, cujos resultados foram publicados na revista Analytical Methods, já haviam mostrado a capacidade da técnica de controlar lagartas de coqueiro, que causam prejuízo entre produtores nacionais, de forma rápida e com menos produtos.

No estudo mais recente, a bolsista desenvolveu um método de análise que envolve a técnica de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (GC-MS, na sigla em inglês) e mostrou que as folhas das palmeiras infectadas liberam altas concentrações de biomarcadores voláteis (os compostos hexanal e E-2-hexenal) que avisam as plantas próximas sobre uma possível ameaça. Essas, por sua vez, passaram a liberar outros tipos de marcadores (3-hexenal e Z-3-hexen-1-ol), sabidamente emitidos por plantas sob estresse, caracterizando uma comunicação entre as plantas pelos voláteis. Já as palmeiras não infectadas ou ameaçadas não liberam os biomarcadores.

“A substância produzida pela própria planta na tentativa de se curar, defender e de alertar as demais é também um poderoso antibiótico, que pode ser utilizado no desenvolvimento de novas bioformulações para tratar as palmeiras usando a endoterapia vegetal”, afirma Ferreira, que publicou recentemente um artigo de revisão sobre a técnica na revista Agriculture.

Solução natural e de amplo uso

Apesar de estudos adicionais ainda serem necessários para detalhar a produção dos compostos voláteis, a descoberta abre caminho para uma série de possibilidades de tratamentos para plantas na agricultura. Exemplos são a avaliação de compostos que podem ser utilizados no tratamento de infecções, criação de estímulos para que as plantas gerem suas próprias defesas, desenvolvimento de impedimentos alimentares e atrativos para inimigos naturais de H. crudus.

Nos Estados Unidos, especificamente, a grande vantagem seria ter à mão uma substância natural alternativa ao antibiótico sintético tradicionalmente utilizado – a oxitetraciclina, não usada no Brasil –, capaz de causar problemas ambientais como a resistência que gera.

“É importante destacar ainda que tanto os voláteis descobertos quanto a endoterapia podem ser alternativas a serem testadas no tratamento de doença em outras plantas perenes”, completa Sônia Cláudia do Nascimento de Queiroz, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e supervisora do estudo.

O artigo Identification of Green-Leaf Volatiles Released from Cabbage Palms (Sabal palmetto) Infected with the Lethal Bronzing Phytoplasma pode ser lido em: www.mdpi.com/2223-7747/12/11/2164.