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Biomaterial desenvolvido na Unesp se mostra capaz de acelerar a regeneração óssea

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto de Biociências de Botucatu, da Universidade Estadual Paulista (IBB-Unesp), desenvolveram um novo biomaterial que acelera a diferenciação de células que produzem ossos – conhecidas como osteoblastos. O resultado se mostrou promissor para uso futuro em processos de regeneração óssea, podendo ser empregado, por exemplo, em enxertos e recobrimento de implantes.

O estudo mostrou que o desenvolvimento de um fosfato de cálcio – molécula com estrutura semelhante ao mineral ósseo – carregado (dopado) com cobalto é capaz de estimular a diferenciação dos osteoblastos. O resultado foi publicado no Journal of Biomedical Materials Research.

“Nossos dados reúnem, pela primeira vez, evidências suficientes baseadas na hipóxia [baixa concentração de oxigênio] de que podemos ter um novo material biomimético com perspectivas de regenerar o tecido ósseo. Em enxertos nem sempre há condições de quantidade e qualidade suficientes para que o osso autógeno [removido do próprio paciente para enxerto] seja usado na clínica”, afirma à Agência FAPESP o biólogo e professor Willian Fernando Zambuzzi, responsável pelo estudo.

Atualmente, tratamentos para pacientes que precisam de enxerto, seja por fraturas, por intervenções para retirada de tumores (ressecção) ou mesmo em próteses dentárias, acabam usando fragmentos de ossos provenientes do próprio indivíduo. Esse processo, no entanto, demanda cirurgias adicionais para a obtenção do material autógeno, com aumento do risco de infecções e maior tempo de convalescença.

Pesquisador da biologia do osso desde os anos 2000, Zambuzzi tem apoio da FAPESP e é orientador do doutorando Gerson Santos de Almeida, primeiro autor do trabalho. Segundo o professor, o grupo tem buscado conhecer moléculas e mecanismos envolvidos no desenvolvimento ósseo e sua relação com biomateriais.

Nos últimos anos, com o aumento da expectativa de vida da população, processos regenerativos do tecido ósseo têm sido alvo de pesquisas no mundo todo e de busca por terapias mais eficazes, visando restabelecer o paciente rapidamente, reduzir o tempo de internação, os custos do tratamento e eventuais efeitos colaterais. Entre as linhas de estudo estão o desenvolvimento de materiais que repliquem com similaridade, segurança e eficiência a complexidade da estrutura óssea.

Construção de conhecimento

Em 2014, estudo liderado pelo pesquisador Ralf Adams, do Instituto Max Planck (Alemanha), e publicado na revista Nature mostrou que células endoteliais – que revestem os vasos sanguíneos – têm capacidade de estimular a diferenciação de osteoblastos, apontando sincronia entre elas. A partir desses achados, Zambuzzi, que à época tinha apoio da FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Jovens Pesquisadores, começou a desenvolver essa linha de estudos no então recém-criado Laboratório de Bioensaios e Dinâmica Celular.

Com base nos resultados prévios somados à literatura, o professor trabalhou com a busca por moléculas que estimulassem o crescimento de vasos sanguíneos, visando um efeito indireto na diferenciação dos osteoblastos. Chegou ao cloreto de cobalto (um sal), que conhecidamente estimula a hipóxia e leva o organismo a aumentar o número de vasos sanguíneos para tentar suprir a ausência de oxigênio.

“A hipóxia acontece naturalmente nos tecidos. Conhecendo seu desenvolvimento e a relação de células endoteliais com as ósseas, entramos nos aspectos biomiméticos. A partir daí, resolvemos provocar artificialmente uma molécula nova – o sal dopado com cobalto – para que pudesse estimular a produção de ossos, como um efeito complementar ao aumento da angiogênese”, explica o professor.

Com base em normas de avaliação biológica (ISSO 10993:5), os testes mostraram que não há toxicidade do novo material. Além disso, a quantidade de cobalto foi decisiva na definição da concentração ideal para aplicações biomédicas futuras, abrindo novos horizontes em medicina regenerativa. “Os resultados são conclusivos na pesquisa básica e nos habilita a buscar modelos pré-clínicos mais complexos de análise buscando melhor compreensão translacional desses achados, como testes em animais”, afirma Zambuzzi.

De acordo com o professor, seu grupo tem buscado estabelecer modelos biológicos in vitro com base no chamado “Princípio dos 3 R’s” – que em português significa redução, substituição e refinamento –, mas se convence da necessidade de modelos que preservem a fisiologia dos vertebrados em alguma etapa do desenvolvimento de novos produtos.

“Estamos no caminho de desenvolver novos materiais biomiméticos que satisfaçam a qualidade de vida das pessoas, dando a devida importância ética ao uso de animais de experimentação”, conclui.

O artigo Development of cobalt (Co)-doped monetites for bone regeneration pode ser lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jbm.b.35319#. 

Estudo traça perfil dos poluentes encontrados em uma das principais bacias hidrográficas de São Paulo

Imagem de congerdesign por Pixabay

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A bacia hidrográfica dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí – também chamada de “bacia PCJ” – estende-se por 76 municípios do Estado de São Paulo e atende a mais de 5,8 milhões de pessoas. Com uma área de drenagem superior a 14 mil quilômetros quadrados, suas águas são muito demandadas pela agricultura, pela indústria e pelo consumo da população. Em função disso, e no contexto da crise climática global, a bacia sofre atualmente com escassez hídrica. Mas esse não é o único nem o maior dos problemas: o grande conjunto de rios, riachos e córregos que compõem a bacia encontra-se também fortemente contaminado por efluentes agrícolas, industriais e domésticos.

As expressões visíveis dessa poluição já foram objeto de várias reportagens da mídia. Mas faltava um estudo em profundidade que identificasse as principais áreas contaminadas e a natureza dos contaminantes individuais e das misturas de contaminantes; que calculasse sua concentração, frequência e toxicidade; e que apontasse seus potenciais riscos para humanos e organismos aquáticos. Esse estudo foi feito agora por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e parceiros de outras instituições do país e do exterior.

O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (14/50951-4, 21/12484-9 e 20/14988-1). Artigo relatando os resultados foi publicado no periódico Chemosphere.

“Além de contaminantes tradicionais, já bastante conhecidos e sujeitos à legislação, encontramos também contaminantes emergentes, ainda não legislados, que apresentam toxicidade em condições de exposição crônica. Nossa pesquisa forneceu o primeiro retrato da ocorrência de compostos do grupo dos PFAS em rios do Estado de São Paulo”, diz Cassiana Carolina Montagner, professora do Instituto de Química da Unicamp e coordenadora do estudo.

Os PFAS são um grupo com milhares de compostos químicos sintéticos, perfluoroalquilados, utilizados pela indústria em uma grande variedade de produtos com o objetivo de torná-los antiaderentes, impermeáveis e resistentes a manchas. A utilização mais conhecida ocorre nos utensílios antiaderentes recobertos por teflon.

Informe da United States Environmental Protection Agency (Usepa, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) lista vários problemas de saúde humana comprovadamente associados à exposição a PFAS. Entre eles, o aumento do risco de alguns tipos de câncer, incluindo de rim, próstata e testículo. “A ocorrência de sete PFAS em diferentes rios do Estado de São Paulo foi relatada pela primeira vez em nosso estudo”, afirma Montagner.

Mas isso não é tudo. “Detectamos também muitos outros contaminantes, compondo um total de 45. Os pesticidas agrícolas atrazina, carbendazim, tebutiurom e 2,4-D foram os que apresentaram a maior frequência de detecção, tendo sido encontrados em 100% das amostras coletadas. A mesma frequência, de 100%, foi detectada também para a cafeína e o bisfenol A [BPA], levados aos rios pelos esgotos domésticos”, acrescenta a pesquisadora.

Aqui é importante dizer que, embora bem tolerada pelos humanos, a cafeína pode ser bastante prejudicial para a biota aquática, como ressalta Montagner. Já o bisfenol A é uma substância química orgânica, o 2,2-bis(4-hidroxifenil) propano, utilizada na fabricação de polímeros e revestimentos de alto desempenho. Plásticos empregados em eletrodomésticos, computadores, brinquedos, talheres descartáveis, mamadeiras, revestimentos de latas de comida e bebida e resinas epóxi contêm BPA. Ele aparece também como componente do PVC maleável em papéis térmicos, como os extratos bancários e os comprovantes de pagamento liberados por caixas eletrônicos e máquinas para leitura de cartões.

Para avaliar a dimensão dos impactos causados por todos esses contaminantes, é preciso considerar que a região servida pela bacia PCJ é um importante polo agrícola e industrial e também a sede de cidades de grande porte. A área responde por 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Destaques são a produção de cana-de-açúcar no município de Piracicaba, a indústria têxtil no município de Americana e a grande concentração populacional no município de Campinas.

“Além de ser a principal fonte de água potável de toda a área, a bacia do PCJ fornece água para irrigação, que não recebe nenhum tratamento antes de ser utilizada nos campos agrícolas. Ao mesmo tempo, a região abriga muitas cidades pequenas que lançam esgoto quase in natura nos rios”, informa Montagner.

A pesquisadora enfatiza que contaminantes emergentes, como pesticidas, hormônios, produtos farmacêuticos, produtos químicos industriais e PFAS, estão sendo liberados na bacia do PCJ, sem que a atual legislação brasileira exija o seu monitoramento.

“Em nosso estudo, coletamos amostras em 15 pontos diferentes da bacia. E avaliamos os contaminantes presentes considerando três fatores: concentração, frequência e toxicidade. Além das altas frequências já mencionadas, obtivemos elevados quocientes de risco para os herbicidas diuron e atrazina, além do inseticida imidacloprido”, conta.

E conclui: “Além de velhos problemas de poluição não resolvidos, como a contaminação por coliformes fecais, por exemplo, há novos problemas agora causados pela presença dos contaminantes emergentes, que são produzidos para garantir a qualidade de vida moderna, mas chegam ao ambiente devido à má gestão dos resíduos sólidos e saneamento ineficiente. Nosso estudo sugere que é necessário estabelecer um programa de monitoramento abrangente para garantir a proteção da vida aquática e da saúde humana”.

Monitoramento

Procurada pela reportagem, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informou em nota que, atualmente, são feitas medições trimestrais em 519 pontos de amostragem, dos quais 91 estão distribuídos na bacia PCJ. Além de parâmetros tradicionais, como matéria orgânica, nutrientes, coliformes e metais, a Cetesb faz medições de agrotóxicos e de alguns compostos emergentes, quantificados indiretamente por meio de dois ensaios: um que mede atividade estrogênica, para a detecção de compostos do tipo interferentes endócrinos (que mimetizam os hormônios femininos, como o BPA); e outro que mensura a atividade de glicorticoides, para a detecção de medicamentos da classe dos anti-inflamatórios.

O texto afirma ainda que os agrotóxicos (42 diferentes ativos) são medidos pela Cetesb desde 2017, em trechos de rios localizados em bacias com uso do solo predominantemente agrícola.

“Na bacia hidrográfica do PCJ, os agrotóxicos são monitorados desde 2018 no trecho de cabeceira do rio Corumbataí […], município de Analândia, com cerca de 65% da área da bacia destinada ao uso agrícola. Os agrotóxicos mais frequentemente detectados nesse trecho do rio Corumbataí no período de 2018 a 2022 foram o inseticida imidacloprida [bastante frequente também nas amostras analisadas na Unicamp] e o herbicida tebutiurom [este encontrado em 100% das amostras do estudo]. As concentrações de imidacloprida estiveram frequentemente acima do limite de ecotoxicidade crônico para invertebrados aquáticos da Usepa [Office of Pesticides Program, OPP], que é de 10 ng/L [nanograma por litro]. Nesse mesmo período, não foram detectados nesse trecho os agrotóxicos 2,4 D e atrazina [ambos detectados em 100% das amostras analisadas na Unicamp], que são contemplados com padrões de qualidade para a proteção da vida aquática pela Resolução Federal [Resolução Conama n.o357/2005].”

Por último, a Cetesb informa que não há valores legislados para a atividade estrogênica e os glicocorticoides. “Os resultados desses dois ensaios, obtidos ao longo dos últimos cinco anos na bacia hidrográfica do PCJ, indicaram valores, em ambos os ensaios, considerados baixos ou de baixa relevância, com base nos estudos já realizados e na experiência internacional.”

O artigo Uncovering the impact of agricultural activities and urbanization on rivers from the Piracicaba, Capivari, and Jundiaí basin in São Paulo, Brazil: A survey of pesticides, hormones, pharmaceuticals, industrial chemicals, and PFAS pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0045653523022233?via%3Dihub. 

El Niño, mudanças climáticas e desmatamento: cientistas explicam o que pode estar por trás da seca da Amazônia

Julia Moióli | Agência FAPESP – A situação da Amazônia é crítica: os Estados do Acre, Amapá, Amazonas e Pará tiveram os menores índices de chuva desde 1980 entre os meses de julho e setembro. E o rio Negro registrou este mês o nível mais baixo de água desde 1902, quando teve início a medição. A mais intensa seca na região em cem anos é consequência da influência do fenômeno El Niño, mas também há indícios de estar associada às mudanças climáticas. A avaliação foi feita por especialistas que participaram do webinário “Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño”, promovido pela FAPESP em 17 de outubro.

O El Niño é um fenômeno que envolve alterações na temperatura do oceano Pacífico Tropical e no comportamento da atmosfera e contribui para alterações nos ventos e na precipitação em várias áreas do planeta. De modo geral, modifica o comportamento dos sistemas frontais (sucessões de frentes), que se tornam mais frequentes e persistentes sobre a região Sul, provocando ali um aumento das precipitações e diminuição das chuvas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

“Em anos de El Niño, portanto, o fenômeno costuma provocar chuvas abaixo da média na região da Amazônia, não apenas no Amazonas, mas também nos outros Estados da região Norte, bem como na região Nordeste”, explicou Regina Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Neste ano, observamos ainda que os impactos do El Niño podem estar combinados com a situação do oceano Atlântico Tropical Norte, que influencia no aumento das chuvas acima do Equador, mas diminui ainda mais as precipitações na Amazônia. Portanto, precisamos aprofundar os estudos para avaliar a associação com as mudanças climáticas. A situação da escassez de chuvas precisa ser acompanhada mês a mês, inclusive para subsidiar a adoção de ações adequadas para mitigar os seus impactos.”

Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou um estudo recente que estima perdas econômicas globais – considerando o Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países – de aproximadamente US$ 5 trilhões ao ano relacionadas aos El Niños de 1982-1983 e 1997-1998, com efeitos que duram até cinco anos.

“Estamos caminhando para outro evento desse porte”, alertou. “É importantíssimo frisar que, embora seja um fenômeno natural do sistema climático, as mudanças climáticas decorrentes de atividades humanas alteram sua frequência e intensidade. Estudos trazem evidências de que haverá um aumento na magnitude dos El Niños”, disse Rodrigues.

Na avaliação de Gilvan Sampaio, coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há uma tendência bastante clara de os eventos extremos se tornarem cada vez mais frequentes e intensos. “Estudos indicam que, até o fim do século, viveremos em um clima de El Niño semipermanente”, afirmou.

“Estudos mostram que o aquecimento da atmosfera se expande da região tropical para médias latitudes, impactando o regime de chuvas”, reforçou Tércio Ambrizzi, coordenador do Grupo de Estudos do Clima do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O desmatamento da Amazônia também agrava a seca, já que diminui a evapotranspiração, isto é, a emissão de vapor d’água pela floresta, que forma as chuvas.

Outros aspectos importantes que merecem atenção este ano na avaliação dos especialistas: antecipação da estação seca, que costuma ocorrer entre novembro e março, para abril a outubro; excesso de chuvas na região Sul, especialmente nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina; e temperaturas acima da média em praticamente todo o Brasil.

Impactos sociais e econômicos

A seca já impacta a população local na Amazônia: comunidades ribeirinhas ficam isoladas por conta da diminuição dos níveis dos rios; botos e peixes morrem em razão da temperatura mais alta da água; a produção de energia elétrica é comprometida; e queimadas prejudicam a qualidade do ar.

Embora as consequências econômicas possam durar anos e se complicarem num futuro próximo, alguns problemas são sentidos desde agora: em setembro, 79 municípios da região Norte tiveram mais de 80% de suas áreas agrícolas afetadas, de acordo com o Cemaden.

Alvalá reforça também que a navegabilidade dos rios vem sendo afetada, causando transtornos em uma região que depende de navegabilidade para transporte de diversos insumos. Fabricantes da Zona Franca de Manaus enfrentam dificuldades para receber componentes para a produção e distribuição de produtos para o resto do país.

“Como não é possível garantir que as chuvas voltarão a níveis normais, é preciso atuar na gestão da crise imposta pela seca para diminuir seus impactos”, ponderou Alvalá. “Designar equipes para a fiscalização das queimadas e o combate ao fogo contribui para reduzir a poluição atmosférica que impacta a saúde das pessoas e, consequentemente, reduz a demanda por insumos importantes para a área de saúde”, exemplificou.

Embora esse tipo de ação imediata pareça trivial, vale lembrar que a região da Amazônia se insere em uma área de mais de 3 milhões de quilômetros quadrados, o que demanda ações coordenadas envolvendo diversos órgãos e atores. Nesse sentido, Alvalá destacou os esforços do governo federal, que tem organizado reuniões periódicas para monitoramento da seca na região Norte e articulação e ações no âmbito do poder executivo federal.

Os pesquisadores apontam a necessidade de intensificar as estratégias de planejamento: “Temos um conhecimento muito claro dos impactos climáticos e do ônus que o El Niño ocasiona”, afirmou Ambrizzi. “Portanto, é possível se preparar com antecedência de três a seis meses, especialmente no caso das defesas civis.”

Os cientistas ressaltaram a importância de estratégias focadas no planejamento urbano, com planos diretores mais eficientes, para que a população possa conviver com o clima mais seco nos próximos anos.

Sampaio citou, por exemplo, possíveis alterações nas variedades agrícolas cultivadas. “O plantio de milho e feijão no Nordeste, que demanda quantidade considerável de água, provavelmente precisará ser substituído.”

Difusão do conhecimento

Promovido pela equipe do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG https://mudancasclimaticas.fapesp.br/), o webinário analisou a intensificação dos eventos climáticos extremos nas últimas décadas e sua associação com fenômenos meteorológicos recorrentes, entre eles o El Niño.

Apresentado por Maria de Fátima Andrade, membro da coordenação do PFPMCG, e moderado por Ambrizzi, o evento foi transmitido pelo canal da Agência FAPESP no YouTube.

Em sua apresentação, o professor do IAG-USP Ricardo Trindade destacou a importância estratégica do PFPMCG, que, há 15 anos, busca entender como as alterações climáticas acontecem, como mitigá-las e qual é o papel do ser humano nos eventos relacionados.

Outros palestrantes, além dos já mencionados, foram Renata Gonçalves Tedeschi, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale; e Marcelo Romero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e membro do Comitê de Mudanças Climáticas da Prefeitura do Município de São Paulo.

Eventos extremos no Brasil e o impacto nas cidades

Gilvan Sampaio, que é autor de uma série de livros sobre mudanças climáticas, e Renata Coutinho, que desde 2002 estuda a influência dos fenômenos El Niño e La Niña sobre a precipitação e seus extremos na América do Sul, dividiram a apresentação, que comentou estudos recentes sobre a importância do El Niño na situação climática extrema atual. Trataram ainda do fenômeno chamado de “Super El Niño”, que deve ser o caso deste ano, com anomalias da temperatura da superfície do mar acima de 2° C ou mais.

Na sequência, Romero expôs o painel “Medidas de mitigação e resposta a eventos extremos nas cidades”: “As cidades são o local escolhido pela maior parte da população mundial para viver, e essa tendência vem aumentando”, afirmou.

Romero chamou atenção para dois relatórios elaborados pelo United Nations Environment Programme (Unep), o programa para o meio ambiente da Organização das Nações Unidas (ONU): o primeiro sobre tendências do clima e medidas de mitigação, com destaque para aspectos como energias renováveis (indústria, transporte, edifícios); e o segundo sobre medidas de adaptação para tornar as mudanças climáticas menos agressivas, sobretudo nos ambientes urbanos. E, considerando que o Acordo de Paris dificilmente será cumprido, destacou a importância de medidas de crosscutting, ou seja, que unem estratégias de mitigação e adaptação, como é o caso do plantio de áreas verdes, restauração de rios e agricultura urbana.

Coube a Regina Alvalá apresentar um panorama dos impactos dos eventos extremos mais recentes, associados ao El Niño atualmente em curso. A pesquisadora citou números alarmantes: “Entre os dias 1 e 4 de setembro, foram registrados aproximadamente 300 milímetros de chuvas, que impactaram 103 cidades da região do Rio Grande do Sul. Isso é praticamente o dobro da média climatológica esperada para o mês de setembro”.

Além disso, o Cemaden emitiu para o mês de setembro 173 alertas, 75% deles para municípios da região Sul, e registrou 194 eventos, dos quais 87% estavam associados a inundações e deslizamentos de terra.

Alvalá trouxe ainda dados sobre o monitoramento das condições atuais de seca, e sobre o risco de seca na agricultura familiar, este incluindo a severidade e a vulnerabilidade socioeconômica que varia de região para região (apesar de ser mais impactante no Nordeste, também é significativa no Norte, mas menos expressiva no Sul); sobre o volume de energia armazenada para diferentes sistemas de reservatórios (diminuição do volume de energia armazenada nas regiões Norte e Nordeste e aumento na região Sul); e sobre o risco de fogo, com mais de 340 municípios com níveis de alerta alto.

O webinário Eventos Climáticos Extremos em Ano de El Niño está disponível na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=_1ddjHDQhNk. 

Streaming Ride2Play! quer tornar esportes equestres tão populares quanto a Fórmula 1 e Champions League

Foto: Reprodução

Startup que une características de uma sportech e uma mediatech completou três anos conquistando os fãs que já acompanhavam as modalidades, agora, assume o desafio de ampliar o alcance como entretenimento investindo ainda mais em produção de conteúdo e novas tecnologias nas transmissões ao vivo

Fundada há três anos, a startup Ride2Play! é a primeira plataforma de streaming totalmente dedicada ao cavalo no Brasil a partir de transmissões AO VIVO dos principais eventos de seus clientes, com narração e extrema qualidade de imagem. Nesse período, conseguiu engajar uma relevante comunidade digital de pessoas apaixonadas por cavalos que convivem, competem ou trabalham com esses animais e seus admiradores, um enorme público potencial em busca de entretenimento e, também, de marcas do cavalo e de luxo que apostam na conexão com esportes considerados premium, como a Fórmula 1 e a Champions League.

“O cavalo no Brasil é um mercado que movimenta mais de R$ 30 bilhões por ano, que gera seis vezes mais empregos que a indústria automobilística. Porém, antes da Ride2Play! esse público não orbitava um lugar comum, vivia segmentado em seus silos. Tampouco havia qualquer iniciativa que mensurasse ou buscasse compreender, analisar qualitativa ou quantitativamente essa audiência tão ampla e heterogênea. Somos o quarto país em plantel de animais, ficando atrás apenas do México, China e Estados Unidos”, explica Rodrigo Moraes, fundador da Ride2Play!.

O executivo acrescenta que “é preciso aproximar o brasileiro dessa cultura e acabar com o tabu de que, mesmo como contemplação, esportes equestres sejam algo de interesse apenas a especialistas e às classes elitizadas o automobilismo e as principais competições de tênis também são considerados ‘esportes de luxo’ e demandam investimentos altíssimos para quem busca a prática dessas modalidades, mas isso não impede que seja um dos mais populares entre os brasileiros enquanto entretenimento, com transmissões de alto nível e, principalmente, com patrocínios milionários, em busca dessa audiência”.

Primeiro marketplace do cavalo no Brasil

A Ride2Play! nasceu streaming, um feito muito importante e significativo em um país que já é o segundo em todo o mundo que mais consome conteúdo nesse tipo de formato. Nesse mês de outubro, se prepara para mais um pioneirismo, que é o lançamento do primeiro marketplace direcionado às marcas de produtos e serviços que buscam o atendimento das necessidades do público nichado do cavalo no Brasil.

“As oportunidades entre a publicidade e parceiros para exposição de suas marcas em nossas transmissões e em nosso marketplace são tão gigantes, que nosso formato de negócio atua com acesso 100% gratuito, em full HD para a essa audiência, seja pelo aplicativo ou pelo nosso canal no YouTube. Nossa receita não vem de assinantes, mas sim da publicidade e das parcerias com esse varejo especializado. Não apenas a programação ao vivo é totalmente gratuita, como o acesso ao histórico das performances de mais de 20 modalidades em torneios espalhados pelo país, além de leilões e outros eventos”.

E Moraes finaliza destacando que “são mais de 50 mil pistas e passadas de atletas profissionais e amadores em nosso App, separados por datas, tipos de eventos e por ordem de entradas desses participantes. Será que as marcas de produtos e serviços estão felizes, batendo suas metas de vendas, em suas lojas físicas e onlines? Queremos provocar e propor uma transformação, uma experiência de acesso a um novo hub de negócios nichado do cavalo, onde quem quer comprar, encontra quem quer vender, em um só lugar”.

Mercado em crescimento no Brasil

O interesse pelos cavalos no Brasil tem crescido muito, e isso é algo reconhecido mundialmente. Seja pela sua capacidade de criação devido sua vasta geografia, a variedade de raças existentes e o aumento do reconhecimento dos benefícios das mais variadas Equoterapias. Apenas estes aspectos já seriam suficientes para um olhar de oportunidades para o setor.

Contudo, o que Moraes identificou e busca alcançar com a Ride2Play! é o aumento pelo interesse do consumo de conteúdo e produtos com o entretenimento. “O homem cria uma relação passional, emocional muito forte com o animal, com a natureza e a sensação de liberdade. Não há motivos para mantermos esse universo fechado em uma comunidade extremamente limitada”, conclui o fundador da Ride2Play!

Grupo Boticário anuncia entrada no segmento pet care com lançamento da marca AuMigos Pets

Grupo de beleza aplicou sua expertise em perfumaria e cuidados para lançar nova linha de pet care, segmento que faturou R$ 41,9 bilhões em 2022 e representa pelo menos 7% das vendas de higiene e limpeza, segundo a Abinpet 2023

 

Na primeira fase de lançamento, a nova marca estará disponível no e-commerce e em 122 lojas físicas do Boticário e 17 Espaços do Revendedor, além do e-commerce e marketplace Beleza na Web

O Grupo Boticário, um dos principais grupos de beleza do mundo, anuncia sua estreia no mercado de pet care com o lançamento da marca AuMigos Pets, pensada exclusivamente para cães e gatos. A partir de 30 de outubro, os novos produtos chegam inicialmente a 122 lojas, 17 Espaços do Revendedor e ao e-commerce da marca O Boticário, além do e-commerce e marketplace Beleza na Web, como parte de um plano estratégico de entrada da gigante de beleza no mercado pet, que, com crescimento acelerado, faturou cerca de R$ 41,9 bilhões apenas em 2022 – um aumento de 17,2% na comparação anual -, segundo dados da Abinpet 2023.

 

Já de acordo com a Euromonitor 2022, o Brasil tem cerca de 167,6 milhões de pets, que estão presentes em 70% dos lares brasileiros, sendo a categoria de pet care responsável por 7% das vendas do segmento de higiene e limpeza. Essa estreia é um movimento inédito para o Grupo Boticário e reforça o objetivo de oferecer cuidados para toda a família. A empresa aplicou sua expertise em perfumaria e cuidados no desenvolvimento da nova marca, tornando sua inovadora tecnologia antiodor seu grande diferencial e atendendo aos desejos do público, uma vez que torna possível que os tutores reproduzam em casa o tratamento e cheiro de limpeza de petshop.
 

Com a novidade, o grupo está endereçando um mercado que faturou R$ 149,8 bilhões mundialmente em 2022, sendo que o Brasil representa 4,95% desse montante, estando em terceiro lugar no ranking global (dados da Abinpet 2023). A nova marca tem expectativa de atingir ainda no primeiro ano mais de 600 pontos de venda no B2B, contribuindo para o fortalecimento desse canal dentro do Grupo Boticário, cujas vendas cresceram 60% em 2022, com previsão de acelerar para 107% este ano.
 

“A entrada no segmento pet reforça que nossa expertise em acompanhar as tendências de mercado extrapola a atuação em beleza e cosmética, justamente porque busca inovar a conexão com o consumidor. Com a chegada de AuMigos Pets, vamos nos conectar, de forma totalmente nova, com 7 a cada 10 lares brasileiros que possuem pets em casa. Esse é mais um importante passo para o crescimento do grupo enquanto empresa, que tem uma trajetória consistente em torno dos pilares de inovação, tecnologia e experiência – e que não vai se acomodar”, afirma Renata Gomide, vice-presidente de Consumer do Grupo Boticário. “O lançamento reforça também nosso crescimento no B2B, canal que fortalece a nossa presença no país, juntamente com os nossos e-commerces, rede de revendedoras e lojas físicas”, completa.
 

A empresa busca potencializar o ponto de contato com tutores em sua rotina de cuidados de cães e gatos, marcando presença em pet shops e megastores.
 

O Grupo Boticário, que reúne marcas, como O Boticário, Eudora, Australian Gold, Truss e Vult, e atualmente está presente em mais de 50 países, com mais de 70 mil pontos de venda B2B, apontou crescimento de 31% em 2022, o equivalente ao dobro do mercado de cosméticos e beleza. No período, as vendas totais do grupo representaram o recorde de sua história, alcançando R$ 23,6 bilhões. Em agosto, a empresa lançou a primeira linha de baby care de Pampers do mundo, em parceria com a P&G (marcas da Pampers, usadas sob licença da The Procter & Gamble Company ou suas afiliadas).
 

A nova linha é aprovada e recomendada por veterinários, além de possuir a certificação PETA – organização que se dedica a estabelecer e defender os direitos dos animais -, garantindo que os produtos não sejam testados em animais. O público encontra produtos, como Shampoo 5 em 1, Shampoo Pelos Claros, Shampoo Filhotes, Condicionador, Banho a Seco e Limpa e Hidrata Patinhas; além de colônias para pets adultos e filhotes. Todos os itens contam com a tecnologia antiodor e perfumação com alto rendimento e fixação.

Os produtos têm preços a partir de R$ 39,90 e podem chegar até R$ 59,90.

 

Sobre o AuMigos Pets

A marca Aumigos Pets, desenvolvida pelo Grupo Boticário, oferece produtos que permitem vivenciar momentos incríveis para fortalecer o vínculo afetivo entre pets e tutores. Com fórmulas seguras e de alta qualidade, a linha possui uma tecnologia inovadora antiodor, que neutraliza o mau odor do pet e traz perfumação.

Biomaterial feito de colágeno e açúcar de algas se mostra capaz de estimular a regeneração óssea

Julia Moióli | Agência FAPESP – Estudo conduzido na Universidade de São Paulo (USP) revela que um novo biomaterial, produzido com colágeno e carragenana (substância extraída de algas), pode estimular localmente respostas mineralizantes de células ósseas in vitro, demonstrando potencial para substituir com sucesso ossos naturais em implantes realizados para tratar traumas ou patologias, como osteossarcoma.

O novo biomaterial, descrito recentemente na revista Biomacromolecules, foi desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Físico-Química de Superfícies e Coloides da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP (FFCLRP-USP) apoiados pela FAPESP (projetos 19/25054-2, 18/25871-8 e 22/01219-5).

Atualmente, o padrão-ouro para implantes ósseos é a utilização de materiais autógenos, ou seja, retirados do corpo do próprio paciente. Esse processo, no entanto, carrega dificuldades: requer uma cirurgia adicional, com o risco de infecções, e nem sempre pode ser utilizado em grandes áreas.

A principal tendência para superar esses problemas é o desenvolvimento de materiais artificiais que repliquem com similaridade, segurança e eficiência a complexidade da estrutura óssea, como este composto de colágeno tipo 1 (proteína mais abundante na matriz óssea) proveniente de bovinos ou suínos e de carragenana. Essa última substância se assemelha ao sulfato de condroitina, que é um dos compostos presentes nos ossos naturais e tem a função de organizar e mineralizar a matriz óssea e promover a adesão celular.

Para testar sua viabilidade e potencial, cientistas cultivaram em laboratório osteoblastos (células responsáveis pela formação da matriz óssea mineralizada) de duas formas: apenas com colágeno e com colágeno e carragenana.

Imagens de microscópio da cultura de osteoblastos com colágeno e carragenana revelaram a presença de uma rede densa e uniforme de fibrilas entrelaçadas em sua superfície e fibrilas de colágeno com alinhamento semelhante aos tecidos conjuntivos densos. Os pesquisadores observaram ainda aumento na expressão de genes codificadores de proteínas relacionadas à mineralização óssea, como fosfatase alcalina (Alp), sialoproteína óssea (Bsp), osteocalcina (Oc) e osteopontina (Opn).

“Nossos resultados mostraram que a combinação de carragenana e colágeno estimulou melhor as respostas mineralizantes das células do que apenas o colágeno, validando in vitro a hipótese de que a presença de um componente semelhante quimicamente e estruturalmente a um dos compostos encontrados nos ossos junto com o colágeno é fundamental no processo”, afirma Ana Paula Ramos, professora do Departamento de Química da FFCLRP-USP e coordenadora do estudo. “A ideia agora é realizar testes in vivo para avaliar a possibilidade e a segurança de preencher qualquer tipo de defeito ósseo com esse biomaterial.”

Entre as principais vantagens do polissacarídeo extraído de algas, que já é usado com frequência na indústria alimentícia e de cosméticos como estabilizante, Ramos destaca sua abundância, seu baixo custo (em contraste ao alto custo comercial do sulfato de condroitina) e o fato de ser um material de fonte renovável, garantindo sua compatibilidade com o conceito de química verde, ramo da química que busca reduzir o uso de substâncias poluentes ou que possam comprometer o meio ambiente.

Conhecimento para diversas áreas

“Além do desenvolvimento do biomaterial a ser usado em implantes ósseos, vale destacar que, ao criar uma matriz biomimética do zero e misturá-la ao tecido natural, abrimos espaço para a realização de estudos básicos”, afirma Lucas Fabrício Bahia Nogueira, pesquisador do Departamento de Química da FFCLRP-USP e autor do estudo.

“Isso permite que pesquisadores de diferentes áreas possam entender e observar a interação dessas células com o microambiente e os mecanismos de formação do tecido mineralizado e apliquem o conhecimento também em estudos que abordam a mineralização em outras doenças, como as cardiovasculares e renais.” O estudo interdisciplinar foi realizado ainda em colaboração com o Laboratório de Nanobiotecnologia Aplicada da FFCLRP-USP, coordenado pelo professor Pietro Ciancaglini.

O artigo Collagen/κ-Carrageenan-Based Scaffolds as Biomimetic Constructs for In Vitro Bone Mineralization Studies pode ser lido em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.biomac.2c01313.

Hidrogel produzido por cientistas da Unesp e da Unifesp melhora a cicatrização de feridas diabéticas

Após 14 dias, as feridas do animais tratados com o hidrogel contendo AnxA12-26 já estavam completamente cicatrizadas (imagem: acervo dos pesquisadores)

Julia Moióli | Agência FAPESP – Pesquisadores brasileiros desenvolveram um hidrogel de baixo custo com ação anti-inflamatória que poderá, no futuro, ajudar a tratar feridas crônicas na pele, como as que costumam acometer pessoas com diabetes. Resultados promissores de testes em animais foram divulgados na revista Biomedicine & Pharmacotherapy.

De acordo com a Federação Internacional de Diabetes, o Brasil é o sexto país em número de pessoas com a doença, que atingiu proporções epidêmicas e se tornou a quinta causa de morte no mundo. São 17,7 milhões de indivíduos sofrendo diariamente com as alterações metabólicas causadas pelo comprometimento da secreção e ação da insulina, como nefro e neuropatias e dificuldades na cicatrização de feridas. Estima-se que um entre cinco pacientes com diabetes possa desenvolver feridas crônicas, como a úlcera do pé diabético.

Em pessoas saudáveis, lesões cutâneas são imediatamente seguidas de uma sequência de eventos que levam à cicatrização: o sangramento é controlado pela agregação plaquetária, proporcionando uma estrutura de suporte para a fixação e proliferação celular, ocorre formação de novos vasos sanguíneos e deposição de colágeno. Para quem sofre de diabetes, no entanto, o processo é muito mais complicado. A hiperglicemia aumenta a produção de substâncias derivadas do oxigênio (oxidantes) e, ao contrário da cicatrização normal, as feridas diabéticas são caracterizadas principalmente pela resposta inflamatória exacerbada e o processo da formação de vasos sanguíneos prejudicado.

Recentemente, hidrogéis biológicos têm sido empregados com sucesso para acelerar o processo de cicatrização de feridas por conta do ambiente úmido e estéril que proporcionam. No trabalho apoiado pela FAPESP (projetos 19/19949-7, 16/02012-4 e 15/12411-0) e conduzido durante o doutorado de Monielle Sant’Ana Leal, pesquisadores das universidades Estadual Paulista (Unesp) e Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram uma fórmula à base da proteína anexina A1, cujo envolvimento na regulação da inflamação e da proliferação celular já havia sido comprovado em estudos prévios do mesmo grupo. No artigo mais recente, o grupo descreve que o tratamento pode modular o microambiente da lesão, favorecendo a regeneração do tecido.

O efeito do hidrogel contendo AnxA12-26 (os aminoácidos que vão do número dois ao 26 na cadeia de peptídeos que forma a proteína) foi avaliado em testes com camundongos que tiveram um quadro semelhante ao do diabetes tipo 1 induzido. Observou-se nos animais uma diminuição de células inflamatórias três dias após a indução das lesões. Após 14 dias, as feridas já estavam completamente cicatrizadas. A título de comparação, os animais que não passaram por nenhum tratamento e que receberam aplicação apenas do hidrogel apresentaram as características comuns da fase aguda da inflamação, com lesões mais intensas no terceiro dia.

Análises mostraram que o tratamento promoveu melhora na regeneração tecidual pela proliferação de queratinócitos (células com papel fundamental na restauração da homeostase da pele), redução de macrófagos (células-chave no processo de cicatrização) e aumento do fator de crescimento endotelial vascular (VEGF, que induz o crescimento de vasos sanguíneos).

Já um ensaio de citotoxicidade in vitro (feito para avaliar como as células da pele reagem ao material) assegurou a biocompatibilidade do produto, sugerindo a segurança para aplicação tópica.

“Nosso hidrogel é altamente absorvente, mantém o meio úmido ideal para a cicatrização e mostra eficiência para levar ao processo de cicatrização completa da lesão, com redução de tempo de cicatrização, inclusive”, afirma Sonia Maria Oliani, pesquisadora do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce-Unesp) e coordenadora do estudo. “Trata-se de uma opção eficaz e que pode ampliar o arsenal terapêutico para o tratamento de feridas diabéticas.”

Economia

Outras vantagens do hidrogel desenvolvido pelos pesquisadores paulistas são a facilidade de produção e o baixo custo – este último é um fator fundamental a ser considerado, uma vez que os gastos médicos anuais com diabetes na América do Sul e Central ultrapassam US$ 65,3 bilhões.

O produto também tem potencial para ser usado com outras finalidades. No momento, os pesquisadores testam seu efeito no tratamento de lesões na mucosa bucal.

O artigo Annexin A12-26 hydrogel improves healing properties in an experimental skin lesion after induction of type 1 diabetes pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0753332223010211?via%3Dihub.